O Mistério Divino: Um Instante Já

No zumbido silencioso da vida, esse ruído que só se ouve quando paramos de ser gente para sermos apenas coisa, vi um menino que corria. O riso dele não era som, era uma costura; ia tecendo-se através do tecido puído do tempo. As horas, essas criaturas invisíveis, dançavam ao redor dele, presas no rastro de sua alegria crua. Eu? Eu mergulhei os pés na correnteza fluida dos momentos. Ali, entre o frio da água e o calor do ser, encontrei uma casa. Uma casa feita de instantes, de onde o meu eu mais profundo jamais quis sair. É um domicílio … Continue reading O Mistério Divino: Um Instante Já

The Geometry of Quietude

I am a daughter of the small, born from a lineage of people who move through the world without bruising it. My blood is a slow river of simplicity and grace. I have lived, truly lived, not in the screaming heights of grandeur, but in the soft, subterranean joy of the ordinary. I do not hunger for a “fancy” house; that is a mask made of cold stone. I hunger for a happy home. To me, happiness is a living thing, a pulse within the walls. I find myself falling into the textures of the past. I touch an antique … Continue reading The Geometry of Quietude

O Vício de Futuro

Às vezes, eu me perco propositalmente ali. É um exercício de desamparo. Deixo-me sentir a minha própria pequenez, essa coisa mínima que sou eu, que somos todos nós, grãos de nada sob o peso do mundo. Lá em cima, milhares de pessoas passam zunindo. Cada uma encerrada em sua própria bolha de pensamento, pequenas redomas de vidro onde flutuam angústias e espantos. Elas não sabem. Elas não podem saber que, logo abaixo de seus pés, há alguém. Alguém que freme, que se rala no atrito de existir. Uma mulher ocupada em se afligir com a própria “situação de vida”, como … Continue reading O Vício de Futuro

O Espelho do Outro e a Minha Fome

Às vezes me perco tentando entender por que recebo tão pouco, quando ofereço tanto. Mas aí o silêncio da casa me responde: as pessoas só te dão o que elas são. E o que elas são, tantas vezes, é um deserto que nada tem a ver com a minha sede. É um erro de gramática da alma esperar que o outro nos entregue o que julgamos merecer. O merecimento não é uma moeda de troca; é um estado de ser. Entendi, num susto de lucidez, que o que eu mereço sou eu quem vou me dar. Não é egoísmo. É … Continue reading O Espelho do Outro e a Minha Fome

O Deserto dos Outros

Antigamente, na inocência dos meus dias, eu temia o isolamento. Pensava, com o pavor dos que ainda não se conhecem, que o pior destino seria findar os dias a sós, no silêncio de uma sala vazia. Como eu estava enganado. Descobri que a solidão não é a ausência de gente; é a presença da ausência. O pior não é estar só, mas estar acompanhado e, ainda assim, sentir-se náufrago. É o peso de palavras que não alcançam o outro e de olhares que nos atravessam como se fôssemos feitos de vidro ou de nada. Estar com quem nos faz sentir … Continue reading O Deserto dos Outros

Hey, are you a dreamer?

—Yeah. —I haven’t seen too many around lately. Things have been tough lately for dreamers. They say dreaming is dead, no one does it anymore. It’s not dead it’s just that it’s been forgotten, removed from our language. Nobody teaches it so nobody knows it exists. The dreamer is banished to obscurity. Well, I’m trying to change all that, and I hope you are too. By dreaming, every day. Dreaming with our hands and dreaming with our minds. Our planet is facing the greatest problems it’s ever faced, ever. So whatever you do, don’t be bored, this is absolutely the … Continue reading Hey, are you a dreamer?

Waking with the wolves

I have watched, with a fatigue that predates my own birth, the slow crumbling of pedestals. I have seen men draw maps of their own virtues, describing in meticulous, ink-stained detail the demons they would never permit themselves to be—only to inhabit those very shadows by nightfall. They swore their angels would never stoop, yet I see the dust of the abyss on their wings. So, if you find me retreating to the corner of some dim cathedral, mixing holy water with the salt of my own prayers, do not mistake it for piety. It is merely a hygiene for … Continue reading Waking with the wolves

O Despudor do Pensamento

Dizem que o corpo é entrega, mas o corpo é apenas um disfarce que se retira e se devolve ao armário. Se eu te dou a minha pele, amanhã acordo inteira em mim mesma; pego-me de volta, lavo-me do seu toque e sigo. O sexo é um cansaço que passa. Mas a conversa… ah, a conversa é uma hemorragia de silêncios rompidos. Quando te dou meus pensamentos, não há devolução. Você parte levando um pedaço real de mim, algo que não é carne, mas o que sustenta a carne. Você vai embora com o que está sob o meu couro, … Continue reading O Despudor do Pensamento

The Weight of the Key

I arrived to nurture your seed, those small, hard silences that tremble in the marrow of winter’s chill. There is a vertical anxiety in this arrival. It is not the fear of the unknown, of those uncharted paths where one might lose a shoe or a soul. No, it is the heavy, humid weight of the “already been.” It is the exhaustion of carrying ghosts we forgot to say goodbye to. We are prisoners who have fallen in love with our bars, only to realize, with a sudden and terrifying clarity, that the keys have always been warm within our … Continue reading The Weight of the Key

O Instante-Já de Marília

Hoje ela faria oitenta e três anos, se o tempo fosse essa coisa linear que nos contam. Mas Marília não cabe em números; ela é um estado de espírito. Era uma, mas carregava em si o cansaço e a glória de mil mulheres. Pianista, bailarina, cantora, o que importa o título? Ela era, sobretudo, presença. Marília, Presente! Dizem que aos quatro anos ela já experimentava o chão do palco. O que sente uma criança ao descobrir que o mundo é feito de tábuas e luzes? Talvez ali ela tenha entendido que a solidão de um monólogo não é falta, mas … Continue reading O Instante-Já de Marília