A Economia do Invisível

Houve um tempo em que as horas eram contadas em moedas de ferro, pesadas e frias, mas o tempo, esse bicho que rói o invisível, está mudando de pele. Eu sinto sob a pele uma urgência que não é minha, ou talvez seja a única coisa que realmente me pertence. Um dia, meu amor, o amor será a moeda. Não essa palavra gasta que se diz entre um gole de café e um adeus apressado, mas a substância bruta, o valor absoluto com que trocaremos existências no mercado do mundo. Olharemos uns para os outros e o que restará na … Continue reading A Economia do Invisível

The Architecture of the Unlit

The light is a vanity, a frantic insistence on being sure, on naming the chair, the wall, the hand. But I have found that certainty is a sterile thing, a desert of the obvious. Not all dark places need light. To flood a room with brilliance is often to evacuate its soul, to commit a small, bright violence against the mystery of existing. I prefer the corners where the shadows have grown thick and heavy, like fruit overripe with its own secret. In those places, the air doesn’t just sit; it pulses. It waits. Some dark places are full of … Continue reading The Architecture of the Unlit

O Avesso do Azul

Escrevo-te porque não sei o que fazer com o que sinto. Tenho nos poros dos sonhos o turvo das minhas rimas, uma espécie de viscosidade poética que me gruda à vida sem que eu a compreenda. É um estado de graça ou de agonia? Não sei. Sei apenas que sinto o infinito dos teus silêncios como se fosse uma matéria física, um peso que me habita e me esvazia ao mesmo tempo. Às vezes, perco-me no deserto de um desejo órfão. É um desejo que não tem pai nem mãe, que não pede licença; ele simplesmente está lá, latejando no … Continue reading O Avesso do Azul

O Útero do Mundo

Haveria espaço para tanta gente em um só corpo? Pergunto-me, enquanto o silêncio da casa me observa. Tantas mulheres. Elas não estão apenas ao meu redor; elas são o avesso da minha pele. De quem é o sangue que estou carregando? É um sangue espesso, escuro, carregado de segredos que eu nunca soube que guardava, mas que reconheço no jeito exato de fechar os olhos contra a luz. Não é uma carga, é uma ocupação. Sou o território onde elas resolveram, enfim, descansar ou gritar. Sinto a força de tantas vidas gloriosas que, antes de mim, teceram o amanhã com … Continue reading O Útero do Mundo

O Voo que nos Come

É de uma mudez assustadora, minha filha. Esse espaço que range dentro da gente, vasto como um deserto que não termina nunca, onde as asas da alma, se é que têm nome, se abrem sem pedir licença. É um voo que não faz vento. Eu te digo: a gente anseia por isso com uma fome que não é de comida. É uma fome de ser. E dói, sabe? Dói quando a gente esquece que as asas estão lá, guardadas entre as costelas, mofando de falta de uso. Quando sinto falta delas, não é ausência: é esquecimento. Eu me esqueci de … Continue reading O Voo que nos Come

Window …

My window of lifeAnd as I watch it going though in the people eyesI ask myself, who am I? Who are you?who must I be? Who must you be?To write these words with pure purityMy words float past the mountains and echo off the seaMy mind is like a open door, and my poems are my airOpen wide and speak out to set these words free, the gab is a gift and the mind is a treasure… So writing what I feel is the greatest pleasure…my ecstasy….❤️ ©️ Beatriz Esmer Continue reading Window …

O Preço da Vida e a Contabilidade do Sangue

É uma ironia trágica, mas profundamente reveladora, que na maior democracia do mundo a indignação pública pareça ter trocado o pulso pelo bolso. Quando o debate sobre uma guerra deixa de ser sobre o luto e passa a ser sobre o déficit, testemunhamos uma falência moral camuflada de “responsabilidade fiscal”. A Mercantilização do ConflitoPara o cidadão médio americano, a guerra tornou-se um produto de consumo distante. Como não há mais o risco do recrutamento forçado (o draft), o corpo do “outro”, seja ele o soldado americano voluntário ou o civil estrangeiro, é invisível. O que é visível, entretanto, é o … Continue reading O Preço da Vida e a Contabilidade do Sangue

Tell me …

Tell me when it gets better, whisper it softly in my ear like a promise of tomorrow’s sunrise. Ask me about the dreamer that died, the one who dared to chase after the stars and got lost in the vast expanse of the universe. Give me a reason to not get comfortable in this skin, to keep pushing against the boundaries that confine me. Show me the silver lining, even if it’s just a faint glimmer in the darkest of nights. Remind me about the goodness in people, the kindness that still lingers in the world despite all the darkness. … Continue reading Tell me …

The Luminous Hunger

It is a peculiar vertigo, this habit of mine. Human beings like me love talking to the stars. We lean our foreheads against the cold glass of the night, asking questions of the silence because the silence is the only thing large enough to hold our hunger. I talk to them not to be heard, but to exist in a dimension where “I” am no longer a social contract, but a pulse. How rare it is to find a soul on earth—a real soul, not a mask—shining bright like a star. Most people are opaque; they are made of thick, … Continue reading The Luminous Hunger

O Encontro no Corredor do Tempo

A Antiga, sentada em uma cadeira de palha, com as mãos frias escondidas nas dobras de um vestido cinza, olha para a Nova. Ela estranha o barulho: não é um som de passos, é o som de pétalas caindo. A Antiga: — Por que você brilha tanto? O escuro era tão mais seguro. Eu guardava cada mágoa como se fosse uma joia preciosa dentro do peito. E você… você abriu a grade. Deixou as joias fugirem. A Nova: — Não eram joias, eram sementes sufocadas. Eu precisei deixar que o ar entrasse. Agora, veja: tenho flores costuradas no meu couro … Continue reading O Encontro no Corredor do Tempo