Dizem que beleza é o que se vê primeiro. Engano. Mentira mútua. A beleza não é o cabelo longo que o vento desorganiza, nem a perna magra que sustenta o corpo sem esforço, nem o dente perfeito que brilha como um anúncio vazio. Isso é apenas superfície, e eu — eu sempre tive medo do que é liso demais.
A beleza é um susto.
É o rosto de quem acabou de chorar e, de repente, descobre um sorriso, uma pequena fenda de luz num quarto escuro. É aquela cicatriz no joelho, herança de quando você caiu ainda menina e o chão lhe ensinou que a terra é dura. É o cansaço bendito: as olheiras fundas porque o amor, esse bicho inquieto, não deixou o sono chegar.
Sabe o que é belo? O susto do despertar. A cara amassada quando a campainha do relógio fere o silêncio da manhã. O rastro do rímel que escorre depois do banho, como se o rosto estivesse se desfazendo em tinta. A risada solitária por uma piada que só você entende, essa liberdade de ser ridícula para si mesma.
“Beleza não é o que se olha. É o que se é quando ninguém está olhando.”
É o instante em que você cruza o olhar com o dele e, de repente, o mundo para de fazer sentido. E que alívio é desentender! É o seu modo de olhar quando o vê chegar. É o choro inútil, mas tão seu, por paranoias que nascem no peito sem pedir licença. São as rugas, esses caminhos que o tempo desenhou na pele para que a gente não se perca de quem foi.
A beleza é uma manifestação do invisível. É o que transborda de dentro, como uma xícara cheia demais. São as marcas: os socos que a memória nos dá e as carícias que os olhos guardam.
No fundo, ser belo é uma coragem. É a entrega absoluta a esse cansaço de ser gente. Beleza é, simplesmente, deixar-se viver.
©️ Beatriz Esmer
