O Estrangeiro em Mim

Sou, como você, uma estrangeira. Mas não de terra ou de língua, sou uma estrangeira de existência. Sinto-me um minúsculo grão de poeira, dessas que a gente só vê quando o sol bate de lado na sala, suspensa, perdida neste mundo que se perde de si mesmo a cada segundo. Sou tão pequena diante da movência desta terra que gira sem nos pedir licença.

Eu não compreendo. E não entender é o meu modo de estar viva.

Por que tanta miséria aqui embaixo? Sinto esse gosto amargo, preto, um gosto de carvão que não fica só na língua: ele invade as narinas, sobe pela testa, vira pensamento cinza. É o peso do mundo querendo me desmanchar.

Mas, escute: é tão difícil assim a gratidão? É tão custoso acordar para a vida com o susto de um sorriso? Olhe para essas pessoas que pulsam, que estão “sendo” agora. Olhe nos olhos delas… mas olhe com o perigo do amor. Porque amar é um risco, mas é o único que vale a pena.

Eu sou pequena, sim. Talvez uma pequena fada, ou apenas um bicho que sonha. Então, por favor, abra o peito. Chore até secar, ria até doer. Deixe que o olhar se perca no “nada”, porque é no nada que a maravilha se esconde.

Ouse. Ouse o absurdo de ser você mesmo, essa loucura de estar desperto enquanto todos dormem. E aí, nesse exato e milagroso instante, a doçura se convida para entrar sem bater. E o coração, antes pesado de carvão, descobre a leveza insuportável do que chamamos de felicidade.

É apenas isso. É tudo!

© Beatriz Esmer

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