O progresso não é um caminho, é uma voracidade. Eu olho para o mundo e sinto o desejo violento de extrair dele não o que ele mostra, mas o que ele esconde entre as vértebras do silêncio. Existe um escopo imenso no vazio, uma distância que eu tento transpor com palavras que soam como instrumentos científicos, mas que vibram como nervos expostos.
Eu busco o escapar na precisão. Gosto de palavras que informam a anatomia do susto. Palavras relacionais, de uma natureza tão exata que beira o sagrado, tão musicais que se tornam uma forma de oração pagã. Eu queria palavras que pudessem devorar a matéria bruta da vida e depois contar o que sentiram no estômago da alma.
Minha mente? É um acorde que ainda não foi tocado, o zumbido de um instrumento que Deus esqueceu de inventar. Sou uma peça de equipamento delicada, uma frequência vocal suave que insiste em vibrar no escuro. Sou um microscópio, talvez. Mas um microscópio dotado de uma timidez bicho-do-mato e, ao mesmo tempo, de uma hostilidade mansa, aquela de quem olha de perto demais e acaba ferindo o objeto observado.
Dê-me novos motivos para aprofundar esse mergulho. Eu preciso da prova. Não a prova dos tribunais, mas a prova da existência. Quero concluir o que é inconcluível. Provar-me a você, sim, mas principalmente provar-me a mim mesma, essa estranha que me habita e que se recusa a ser apenas um fato. No fundo, eu não quero apenas saber; eu quero ser a própria batida do átomo que, ao ser nomeado, finalmente descansa.
© Beatriz Esmer
