Introspectiva

Sentia-me estrangeira de mim mesma, até que entendi: a casa não é tijolo, é o osso do que somos. Acredito, com uma convicção que quase me fere, que a integridade do lar determina a integridade da vida. É ali, no silêncio entre quatro paredes, que tentamos equilibrar o peso do mundo, esse mundo que gira torto, descompassado, e que insiste em nos roubar de nós mesmos. Proteja sua casa! Proteja seu coração! Proteja seus laços! Há uma verdade muda que me assombra: não se pode exportar o que não é cultivado no próprio jardim. O que não é “feito em … Continue reading Introspectiva

The Labyrinth of the Instant

Am I just a fool? The question vibrates in the air like a trapped insect. But the voice, that subterranean pulse beneath the ribs, denies it with a dry, hard “no.” I have tasted the fruit called Life; I have felt its juice run sticky down my chin, both the honeyed light and the bile of the pit. I am older than my skin. I have gathered a wisdom that arrived uninvited, born from the “me” of yesterday, that impertinent child who wept over shadows. Those tears were not water; they were an irrefutable lesson in the anatomy of fear. … Continue reading The Labyrinth of the Instant

O Mergulho na Letra

Leio, não com os olhos, mas com a ponta dos dedos que tateiam o abismo. Eu leio para iludir-me, porque a realidade crua é uma fruta que ainda não aprendi a descascar sem sangrar. Há um cansaço em ser apenas eu, em estar presa nessa moldura de ossos e nomes. Então, leio para tombar-me nos mistérios, deixando que a queda seja o meu único apoio. Cair é uma forma de voar quando o chão é de papel. Sinto o gosto das vogais na garganta. Leio para por-me na boca dos pássaros, querendo que eles me levem para onde o sentido … Continue reading O Mergulho na Letra

O Plantio Silencioso

Sem que eu percebesse, ao caminhar pela estrada da vida, entreguei minhas sementes às tuas mãos abertas. O Tempo, agindo como o jardineiro divino, acolheu esse gesto e transmutou o destino, permitindo que o que foi plantado em silêncio retornasse a mim como uma colheita sagrada de cores e sonhos, revelando que cada grão carregava em si a luz da própria aurora. Ao tocarem a essência do teu ser, essas sementes ganharam vida e floresceram em uma sinfonia de matizes que agora dança sob o sol da alma. Cada pétala sussurra segredos de um amor profundo e, no sorriso silencioso … Continue reading O Plantio Silencioso

The Luminous Gaze

I look at you and I do not wish for the superficiality of a color. To say your eyes are blue, or green, or brown, that is merely to name the paint on a shut door. It is too easy. It is too certain. And I am interested only in the uncertainty of the soul. My hope for you is a kind of stripping away. When others stop before you, arrested by your presence, may they be struck by a sudden, holy amnesia regarding the physical. May they forget the pigment. May they fail to find the words for the … Continue reading The Luminous Gaze

The Architecture of the Ineffable

I exist. And because I exist, I am struck by the sudden, sharp weight of my own soul. It is a fragile thing, like an egg held in a closed fist—it could shatter, yet it breathes. No, I will not let the acid of hatred touch it. To hate is to shrink, and I am currently occupied with the vastness. I will not dishonor this internal silence with the noise of bitterness; instead, I offer myself. I offer my hands, which are clumsy but willing, to be a guardian of nature. Not a master, you understand? But a witness. I … Continue reading The Architecture of the Ineffable

A Arte não Possui Fronteiras

A arte, meu amor, e digo “meu amor” como quem diz uma fatalidade, não nasce do veludo. Ela não é esse adorno pálido que se compra com o excesso ou com o privilégio de quem tem as mãos limpas. Não. Ela é filha da urgência. É o grito que se desprende quando o silêncio se torna insuportável. Ela não foi acalentada por mães suaves em berços de ouro. A arte que me toca é aquela que tem as pernas sujas de barro, que cresceu no estômago vazio do gueto, no fôlego curto da favela. É uma criação de luta, um … Continue reading A Arte não Possui Fronteiras

O Verbo de Vento e de Vidro

Se eu soubesse… Ah, se eu soubesse colher, entre os campos do impossível, aquela única palavra que não se quebra. Se eu pudesse encontrar o vocábulo que tem o peso de um segredo e a leveza de uma asa, juro que me arriscaria pelos labirintos do silêncio apenas para trazê-lo à luz. Eu a tomaria entre os dedos como quem segura uma gota de orvalho. Lapidaria sua forma até que ela perdesse toda a sua aresta bruta, transformando-a em uma joia de névoa e de brilho, algo tão raro que o tempo não pudesse apagar. E então, com a delicadeza … Continue reading O Verbo de Vento e de Vidro

Dehumanize them

The camera shutter is a guillotine. It severs the head from the history, the body from the soul, leaving only the aesthetic of suffering to be consumed over coffee. We walk among them like gods made of linen and digital sensors. We do not see people; we see variables. We see a mouth and call it a hunger statistic; we see a pair of hands and call them a labor metric. To give them a name would be to invite a ghost to dinner, so we keep them anonymous, a blurred background of “diverse” shadows that validate our own bright, … Continue reading Dehumanize them

O Amor-Inconsciente

Não é que eu não saiba. É que saber é uma forma de limite, e eu me recuso a bordas. Quero um amor assim, desvestido de intenções, um amor nudo. Você entende? É a nudez de quem não se preparou para o encontro, de quem simplesmente está. Sinto uma fome de querer tudo, mas é uma fome que treme. Tenho medo da incógnita, desse “X” que surge quando os olhos se fecham. Mas o medo também é matéria de vida. Amo sem perguntas, porque as respostas seriam o ponto final, e eu prefiro as reticências de um amor sem tempo, … Continue reading O Amor-Inconsciente