O Sopro que resta

Às vezes, o vento sopra com uma fúria que não é do ar, mas de dentro. É um vento que desarruma os pensamentos e desfolha o que julgávamos ser certezas. As noites, então, deixam de ser apenas ausência de sol para se tornarem um poço, uma escuridão espessa, quase tátil, que nos olha de volta.

E o tempo… Ah, o tempo. Esse bicho estranho. Há dias em que os ponteiros do relógio não giram, eles se arrastam como se carregassem o peso do mundo inteiro. É nesse vagar que a gente nota. A gente nota o silêncio que sobrou entre os móveis, o espaço vago entre uma respiração e outra. A lucidez do vazio é, por vezes, insuportável. É o “não-ser” gritando na sala de estar.

Mas ouça o que eu te digo, com a urgência de quem sabe que a vida é um soco no estômago: é exatamente aí, no epicentro dessa vacuidade, que você precisa dançar.

Não é uma dança de alegria, a alegria é boba e passageira. É uma dança de existência. É o corpo se movendo para provar que ainda ocupa um lugar no espaço, que ainda desobedece ao nada. Mesmo que o vazio te rodeie, mesmo que ele tente te sugar para o centro de sua mudez absoluta, você move um pé. Depois o outro.

Dançar sobre o abismo é a única forma de não cair nele. Não deixe que a quietude te devore. O vazio é um convite ao desaparecimento, mas o movimento… o movimento é a única coisa que nos mantém irremediavelmente vivos.

©️Beatriz Esmer

Leave a comment

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.