O Instante da Xícara

Acordar é um ato de coragem ou de profunda desistência. Há manhãs que já nascem com o peso de uma derrota, um cansaço que não é do corpo, mas da alma que se reconhece pequena diante do som do despertador. É um gosto de ferro, um silêncio que nos aponta o erro antes mesmo de tentarmos o acerto. Outros dias, porém, trazem a vingança — uma revanche súbita que entra pelo quarto com o primeiro raio de sol, ferindo a escuridão e nos obrigando a existir com uma alegria quase violenta.

Sinto que navegamos entre esses dois polos: o sabor amargo da rendição, que desce seco pela garganta, e o gosto denso, quase selvagem, da rebelião. Mas onde está a verdade? Onde é que eu realmente me encontro?

Talvez a verdade não esteja na vitória nem na queda, mas no intervalo. Os dias mais puros, os mais brutalmente reais, são aqueles que não pedem definições. São os dias que começam com o profumo del caffè.

Aquele aroma que invade a casa não é apenas uma bebida; é o anúncio de que o mundo ainda está lá fora e eu, milagrosamente, estou aqui dentro. O café é o ponto de contato entre o meu mistério e a matéria. No vapor que sobe da xícara, eu me aceito. Não sou derrota, não sou triunfo. Sou apenas esse silêncio que bebe, no calor do primeiro gole, a certeza de que a vida, por fim, recomeçou. ☕❤️

©️ Beatriz Esmer

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