É …

É o sossego que amanhece nos raios tímidos que atravessam tua janela —
como quem entra devagar para não acordar teus medos.

É o “eu ainda me importo” dito no breve aperto de mão,
esse gesto que Mário Quintana diria ser quase um poema escondido
no bolso do casaco.

É a sopa quente quando o corpo fraqueja,
é a carta que treme nas tuas mãos antes de ser enviada,
é o acerto silencioso de fazer o bem
mesmo quando o mundo insiste em te ensinar o contrário.

É o alívio que mora no sorriso conhecido
depois de um voo longo demais,
como se o tempo, por um instante,
desistisse de ser tão severo.

É o esforço nascido da esperança,
essa teimosia doce que sustenta o impossível.
É estender o braço a quem só consegue segurar o teu.
É soltar — e permitir que o outro também se solte.

É o perdão que não diz “tanto faz”,
mas sim “agora pode ser melhor”.

É querer o bem deles
mesmo quando o teu coração já não sabe
se ainda cabe ali algum lugar para dois.

É a ligação que substitui o texto,
porque certas presenças não cabem em letras.
É a compreensão que chega no lugar do julgamento,
a música que insiste em tocar dentro de ti,
a preocupação que desarma a raiva,
o cuidado que organiza o caos.

É o amor —
esse pequeno milagre cotidiano
que Quintana chamaria de coisa simples,
mas que, no fundo, move tudo.

© Beatriz Esmer

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