Às vezes, o que eu não sei é tão vasto que se torna a minha própria pele. Eu não sei de quase nada, e esse não-saber me arranha a garganta.
Como explicar o veneno que governos destilam sobre seu próprio povo? É uma lucidez fria que me escapa. E as crianças, ah, as crianças, que caem sob o peso de um metal que cospe morte, segurado por mãos que ainda guardam o cheiro do giz e do pátio. São meninos matando meninos, e o ferro é mais pesado que a alma.
Sinto o mundo oscilar. O planeta cambaleia, um gigante tonto, e nós, em nossa arrogância miúda, nos recusamos a dizer: “fui eu”. Negamos a culpa enquanto o chão treme sob nossos pés. Tornou-se um erro social, quase uma falta de etiqueta, compartilhar a dor.
Silenciamos as perguntas como quem esconde uma mancha feia no vestido.
Eu não sei. Realmente, não sei!
Mas, no centro desse deserto, há um latejo. Existe um Coração Sagrado batendo bem no meio da ferida, e ele não pede licença para pulsar. Eu sei, e essa certeza me queima, que quando nos olhamos nos olhos e lembramos de quem somos, o mundo, por um segundo, respira. É um suspiro de esperança que vem do fundo do estômago.
O que me resta? Amar a partir do meu próprio centro. Um amor que nasce das entranhas e se torna a fonte de tudo o que vive. Mesmo quando tropeçamos, mesmo nesse nosso desamparo desajeitado, não estamos sós. Podemos escolher o amor como um ato de resistência contra a brutalidade. Podemos fazer das dúvidas do coração um ritmo comum, uma graça que se divide como pão.
Haveria outro caminho? Que tipo de vida seria essa, se não houvesse o risco da esperança?
Eu não sei… sinto que não sei de nada. Mas talvez esse “não saber” seja o meu modo mais profundo de existir.
O mistério é a minha única certeza.
© Beatriz Esmer
