No meu peito, a vida não se pede licença; ela se instala com o peso sagrado das coisas antigas. Meu coração tem catedrais imensas, dessas de teto alto onde a poeira brilha no feixe de luz que atravessa o vitral, desenhando santos no chão de terra batida. São templos de priscas e longínquas datas, erguidos antes mesmo de eu saber que existir era esse ofício de sustentar o eterno no que é perecível.
Ali, entre o cheiro do café coado e o mofo das sacristias, um nume de amor, em serenatas, desata o nó da garganta e canta a aleluia virginal das crenças. Não é um canto de anjo de gesso, mas de quem conhece a lida do mundo e, ainda assim, se ajoelha diante do mistério. É a liturgia do cotidiano: a gente reza enquanto descasca batatas, descobrindo que Deus gosta mesmo é do que é simples, mas tem a imensidão de uma basílica.
É um sossego bonito, uma pureza que insiste em ficar, lembrando que, no meio de tanta pressa, a alma ainda guarda um lugar de silêncio e velas acesas.
© Beatriz Esmer
