O Abrigo de Vidro e Osso

E agora, Bia? A festa não houve, mas o frio chegou.
Então, com a paciência dos que sabem que o tempo é um bicho lento,
eu levanto um esconderijo improvisado entre as minhas próprias costelas.
É uma casa feita de arquitetura interna,
onde o teto é o esterno e as paredes são o que sobrou de mim.
Para esquentar o que o mundo resfriou,
não busco lã nem fogo alheio.
Estendo sobre a alma cobertores tecidos com minhas palavras favoritas:
substantivos que me ancorem, adjetivos que não me firam,
e aquele verbo — ser — que insiste em não conjugar no pretérito.
Ali, no escuro morno do meu próprio peito, eu me ponho a analisar.
Disseco a dor como quem conta feijões sobre a mesa de madeira.
Analiso cada gesto, cada sombra, cada pedra no caminho,
até que o raciocínio vire prece.
Fico nesse exílio voluntário, nessa vigília de mim mesmo,
até que a manhã deixe de ser um julgamento.
Espero, com a teimosia das flores que furam o asfalto,
até que o sol se sinta mais perdoador,
derretendo o gelo das culpas que eu mesmo inventei.
Espero, enfim, até que a vida — essa coisa vasta, vasta —
resolva, por um minuto de distração ou de graça,
também me perdoar. ❤️

© Beatriz Esmer

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