Amável. Adorável. Uma palavra que antes me era estrangeira, uma língua que eu não sabia falar com as mãos, muito menos com a alma. Até agora. Agora, sinto o peso doce dessa descoberta, como se eu tivesse finalmente traduzido o próprio silêncio.
Eu te desafio, sim, é um desafio, quase uma audácia, a contar as infinitas vezes em que morri. E, com uma violência mansa, as vezes em que nasci de novo. Houve birras. Houve um desespero infantil e sagrado. Eu me roí por dentro, arranhei as paredes da minha própria pele para conseguir sair de mim. Era preciso. Era preciso rasgar o casulo para que o potencial não me sufocasse. Eu me adaptei à minha própria imensidão.
Às vezes, a nostalgia me chama. É um sussurro que vem de um tempo em que eu ainda estava decorando os contornos da minha pele, tateando o escuro de quem eu era. Eu a visito, essa menina que fui, apenas para lhe dar a notícia, o segredo que ela ainda não suportaria carregar sozinha:
“Escuta: você vai ocupar mais espaço no mundo do que jamais ousou sonhar. Você vai adorar quem você se tornará, com todas as crateras, as falhas, os abismos abertos. É por causa desses solavancos, dessas marcas roxas que a vida imprimiu na sua carne, que o seu luar será assim: cegante.” Alguém um dia me disse.
Não é o brilho da perfeição. É o brilho de quem se sobreviveu. E isso, meu caro, é o que existe de mais divino.
© Beatriz Esmer
