Havia uma urgência muda no poente. “Eu amei todos vocês juntos”, sussurra o sol para a lua, num hálito de quem confessa um crime ou uma santidade. Ele arrebenta em carmim e ouro, uma hemorragia de luz que tenta estancar a própria solidão enquanto ela, a lua, desce os degraus para o andar de baixo, em direção ao sono.
Mas a lua é apenas metade de um corpo. Há nela uma falta que dói. Hoje, ela é só um hemisfério minguante, uma tristeza curvada sobre si mesma que se recusa a ouvir. O não-ouvir da lua é um muro de vidro: o sol fala, mas o som não atravessa a densidade do vácuo. Sentir-se é um esforço grande demais.
Em silêncio, o sol se recolhe. Ele se enfia na cama com a resignação dos que cansam de brilhar. Na antessala do cosmos, as estrelas tapam os ouvidos com as mãos de luz, porque a dor do outro é insuportável, e entoam canções de ninar rípidas, tentando abafar o que não pode ser calado:
Abaixo dos lençóis da noite, o som do que sobra.
Singhiozzi soffocati.
Soluços sufocados que vibram no escuro do quarto ao lado.
© Beatriz Esmer
