Não era para haver algo mais? Algo que não coubesse no bolso ou no relógio?
Ando com uma fome de estradas que não se aquieta. Saio por aí, de olhos gulosos, querendo furtar do mundo cada estímulo, cada saber, cada cor nova que o dia inventa. Sou esse pedinte de novidades, esse colecionador de espantos, e, nessa pressa de entender tudo, acabo esquecendo o que vim buscar.
A gente tropeça nas “grandes verdades” e esquece que a verdade, a de verdade mesmo, é aquela que a gente deixa para trás, caída no chão, como um lenço esquecido num banco de praça.
Pois vejam só: depois de tanto rodar o mundo e a alma, a gente descobre que a vida, essa senhora tão cheia de mistérios e chapéus, não passa de uma luta mansa. Um esforço cotidiano de ser digno do fim da jornada.
Viver é apenas o ofício de merecer um adeus que nos abençoe. É o modo como a gente sopra, com delicadeza, os momentos que vivemos para o colo dos outros: para os filhos que ainda não sabem o que é o tempo, para os pais que já sabem demais, para os amantes que inventam a eternidade e para os amigos que nos ajudam a carregar o fardo da existência.
A vida, no fim das contas, é o que a gente dá de presente, em fatias de tempo, a quem se ama. O resto é só poeira nos sapatos.
© Beatriz Esmer
