Volta

Há coisas às quais voltamos, porque não há outro jeito senão o de colidir de frente com o próprio enigma.

São pessoas que insistimos em amar — não por escolha, mas por uma espécie de fatalidade mansa. Lugares que guardam um segredo, que cantam e suspiram quando pisamos neles, como se a terra mesma estivesse viva. Há palavras que não secam; ficam ali, granulosas e ásperas, movendo-se dentro da boca, incomodando a língua com o seu peso de existência. E as canções? Certas músicas nos arrancam violentamente da indiferença, essa anestesia dos dias, e nos obrigam a sentir. Sentir dói, mas é o que nos salva de não ser nada.

Volto também aos pequenos cafés, trêmulos com suas excentricidades charmosas, onde o cotidiano se disfarça de mistério. Volto às histórias de sustos antigos — aqueles pavores que, no avesso do tempo, viraram um frisson quase alegre, uma vertigem bonita. E as fotografias… ah, as fotografias. Olho para elas e vejo o milagre: as mãos deles estão nas suas, e vocês dois estão radiantes, emitindo uma luz que quase cega. Há poesia nisso. Há movimento. Há a luz pura que escapa da matéria.

No fundo, é tudo a mesma coisa. O espanto que paralisa e o aperto no peito que nos dobra ao meio. Todo o amor do mundo misturado, sem divisórias, com a perda. É um nó que não se desfaz.

Há coisas às quais inevitavelmente voltamos, num eterno ensaio de nós mesmos.

Há coisas às quais voltamos… e, no centro exato desse retorno, suspensa no vazio e cheia de tudo, está você.

© Beatriz Esmer

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