Preste atenção. Donald Trump é a prova viva e cuspida de que os brancos nunca foram supremos ou superiores. Nunca.
A história humana é cheia de mitos grandiosos criados para justificar a brutalidade. O maior deles, sem dúvida, foi a fábula da supremacia branca. Durante séculos, impérios foram erguidos, terras foram roubadas e corpos foram escravizados sob a narrativa de que o homem branco carregava o fardo de uma “superioridade natural” — seja no intelecto, na moral, na liderança ou na civilidade. Construiu-se uma redoma de vidro baseada na ideia de uma excelência intocável.
Aí veio Donald Trump. E, com um sopro de vaidade e tweets em caixa alta, estilhaçou o vidro.
O maior favor involuntário que Trump prestou à humanidade foi o de ser a demolição estética, intelectual e moral desse mito. Ele não é uma anomalia do sistema; ele é o seu espelho mais nítido. Se a supremacia fosse um fato baseado em mérito e sofisticação, o homem de ouro da extrema-direita global precisaria ser um titã do pensamento, um exemplo de virtude inabalável e liderança magnânima.
Em vez disso, o que o mundo assiste, em tempo real, é a apoteose da mediocridade blindada por uma maquiagem laranja pesada.
Trump é a prova viva de que um homem pode ter um vocabulário restrito a superlativos infantis, falir cassinos (o único negócio onde a banca sempre ganha), mentir compulsivamente e demonstrar um despreparo técnico constrangedor para o cargo mais poderoso do planeta — e, ainda assim, ser tratado por milhões como um messias.
Isso não é supremacia. Isso é o ápice do privilégio.
O que ele escancara para o mundo é o mecanismo secreto do racismo estrutural: a branquitude nunca foi sobre ser superior; sempre foi sobre o direito exclusivo de ser medíocre sem sofrer as consequências. Enquanto minorias precisam ser impecáveis, geniais e duas vezes melhores para conseguir uma fração de espaço, a estrutura supremacista permite que um homem branco flutue até o topo carregado apenas pela audácia e pelo ressentimento.
A retórica de Trump não atrai seus seguidores pela promessa de um futuro brilhante, mas pelo conforto do espelho. Ele valida a pequenez. Ao vê-lo tropeçar na verdade e na ética e, mesmo assim, manter a coroa, o homem comum descobre que não precisa ser “supremo” para mandar no mundo. Só precisa garantir que as regras do jogo continuem viciadas.
O castelo de cartas desmoronou. Diante de Trump, qualquer argumento de arrogância histórica ou superioridade civilizatória se desfaz em piada. Ele tirou o manto sagrado do poder e mostrou o que havia por baixo: não um deus, mas um blefe. Nunca houve superioridade. Sempre foi apenas o monopólio da força e a herança do privilégio. E nenhuma fake news consegue reescrever essa nudez.
© Beatriz Esmer
