Viver não é paciência. O mar não espera que os pés se acomodem à hesitação das ondas. Não se entra na existência como quem testa a temperatura da água com a ponta dos dedos; o morno é uma mentira. Quem hesita, naufraga antes mesmo de molhar os olhos. Há um terror sagrado em se dar conta de que a maré derruba, de que a água gela a alma, mas o medo… ah, o medo não é proteção. O medo é o naufrágio da própria substância.
O oceano exige o corpo inteiro. A vida exige o mergulho exato onde o chão nos falta.
É preciso uma entrega que beira a violência. Deixar-se levar pela correnteza que arrasta, aceitar o corte secreto das conchas bonitas que sangram as mãos. Existe um luxo de cores e mistérios no fundo desse abismo, uma beleza que quase dói de tão real. Mas se eu me perder no supérfluo, se eu me distrair na superfície, o sol queimará a minha carne e o sal amargará a minha boca como um castigo por não ter ousado o fundo.
Eu sei que os castelos de areia que construo serão desfeitos pela maré. O mar não tem modos. Mas eu os construo assim mesmo. É um ato de heresia contra o nada.
O horizonte não é uma linha; é um limite que eu invento para não enlouquecer de infinito.
Aprende-se a nadar nadando, aprende-se a ser sendo. Não há resposta antes do salto. Por isso, mesmo sem ar, mesmo exausta, mesmo na iminência de deixar de ser… eu vou. Eu me jogo.
Mergulhar é a única urgência. Porque a partida é o avesso exato da chegada. E morrer — essa coisa tão viva — é apenas o nascimento virado do avesso.
Sem dúvida nenhuma… ❤
© Beatriz Esmer
