Como se perdoa um pai?
A pergunta me veio na hora do almoço, entre o mastigar mecânico da carne e o barulho do relógio na parede, que insiste em contar um tempo que já não nos pertence. Olhei para as minhas próprias mãos e vi nelas o desenho das mãos dele. É um susto. Estar presa na herança da carne daquele que me abandonou?
Talvez o perdão só aconteça no sonho. Lá onde a lógica das coisas duras se desfaz e a gente esbarra no outro sem o peso da memória.
Perdoar porque ele ia embora vezes demais? Ou porque foi embora para sempre, quando eu ainda era um projeto de gente, pequena, dependendo do sopro dele para existir? Há pais que assustam pelo excesso: a fúria inesperada que quebra os pratos e a alma. Mas há o susto do avesso, que é pior: o nervosismo de olhar para um homem e ver um deserto sem raiva nenhuma, uma calmaria que esconde o nada. Um pai de gesso.
Fico pensando no contrato que ele assinou ou rasgou. Perdoar por ter casado com a minha mãe? Por não ter casado? Pelos divórcios divinos ou pelas permanências infernais? A gente passa a vida cobrando a conta do amor que eles deram ou retiveram. O excesso de calor que sufoca; a frieza que gela a espinha do quarto ao lado.
Eles empurram a gente para o mundo com força demais, ou se encostam na nossa fragilidade porque não aguentam o peso de serem deuses.
Batiam portas. Ou pior: falavam através das paredes, aquela voz abafada que nunca chega a ser palavra, só ruído de condenação. Alguns nunca falaram. Outros nunca silenciaram a própria importância.
Em que tempo se perdoa? Na minha idade, quando a pele já começa a ceder e eu entendo o cansaço do mundo, ou na idade dele, quando ele já era só um menino disfarçado de adulto? Ou se perdoa na morte? Diante daquele caixão que parece pequeno demais para conter tanto eco. Dizer o perdão em voz alta ou deixá-lo mofar no peito, intocado, não dito, secreto.
Se eu perdoar meu pai, o que me sobra?
Essa é a grande náusea. Se eu tirar de mim a mágoa que me sustentou e me definiu por tantos anos, quem serei eu? Se eu não for a filha traumatizada, serei o quê? Sinto um vazio que quase me deixa tonta.
Mas depois… depois vem um cansaço dócil. O cansaço de quem parou de lutar com fantasmas. Talvez o que sobre seja apenas isso. O nada. Um coração em paz. Um coração que finalmente bate sem precisar de resposta. ❤️🙏
© Beatriz Esmer
