Acordei. Ou talvez estivesse apenas inaugurando um novo modo de estar acordada. Minhas mãos estavam enredadas nas de um outro, os pulsos numa sincronia assustadora, uma dança de silêncios que eu mal ousava respirar para não quebrar. Foi ali, naquele aperto quase insignificante de dedos, que tropecei no amor.
O amor, descobri com um sobressalto de lucidez, é de uma delicadeza que quase ofende. Ele não grita; ele é despretensioso, sussurra nas penumbras do quarto, demora-se como um pensamento que chega atrasado, tecendo-se sem pedir licença na matéria pesada do cotidiano. É uma coisa que se infiltra no que é banal, transformando o tédio em mistério.
Senti, com uma pontada no estômago, que o amor habita exatamente os vãos. Está nos hiatos da vida — nos suspiros e nos olhares roubados dentro do vagão de um metrô em movimento. Almas que se cruzam na transitoriedade de um trilho, convergem por um segundo e se separam para sempre, sem que saibam que se tocaram. O amor é esse tesouro acidental que a gente pisa sem querer ao sair pela porta; a página dobrada de um livro esquecido que marca a pausa de um fôlego; a melodia desatenta que escapa da boca quando a solidão, finalmente, nos abraça como uma mãe severa.
Disso me veio um peso: o amor dói como o arrancar de botões de flor de seu berço verde. Uma sinfonia agridoce onde a beleza e a separação são a mesma substância. Pensei, então, nas camadas coloridas de um bolo de aniversário — aquela tradição mantida teimosamente ao longo dos anos por mãos que envelheceram, sim, mas cujos corações permaneceram tragicamente intactos, imunes ao tempo.
O amor está nos restos. Nos pedaços amassados de bilhetes que nunca tiveram a coragem de ser enviados, nas meias solitárias que perderam seus pares no caos da lavanderia, nas brasas enegrecidas daquilo que ardeu um dia com paixão e agora é cinza fria. É um épico monumental escrito por milhões de autores anônimos — uma obra inacabada cujo fim nos é permanentemente vedado.
Mas, Deus meu, como ele persiste. Fica guardado nas pinceladas invisíveis do toque sobre a pele, deixando obras-primas secretas gravadas na nossa carne. Habita as cicatrizes, as marcas roxas — testemunhas mudas de um fervor que doeu —, e floresce na curva daquele sorriso que antecede o beijo, um beijo tão profundo quanto o estômago do oceano.
Amar é o ritmo do ser de um outro reverberando dentro do próprio peito, uma partitura tocada a quatro mãos com o universo — uma língua que todos nós, no fundo, sentimos, mas da qual raramente conseguimos lembrar as palavras exatas.
E foi assim, no susto daquele sonho tão nítido, que compreendi: o amor não é um sentimento que se possa guardar numa caixinha. É uma experiência pura, uma tapeçaria selvagem tecida por mãos infinitas: segurando, acariciando, pintando uma arte invisível através do tempo e do espaço vazios.
Era, afinal, apenas um sonho. Mas um sonho bonito demais para ser mentira — um vislumbre rápido, quase insuportável, do reino sem bordas do amor.
© Beatriz Esmer
