O amor não tem modos. Ele chega com a fome impessoal de uma fera que não escolhe o que mastiga; ele apenas quer o preenchimento de seu próprio vazio.
Olho para mim mesma e já não me reconheço. É que o amor devorou o meu nome. Olho para a calçada, para os papéis guardados na gaveta, e não há mais registro: ele engoliu minha identidade, meu reflexo, o meu próprio rosto. Um estômago divino e cruel que tragou minha certidão de nascimento, minha linhagem, meu endereço no mundo. Onde eu morava? Agora moro no perigo de existir sem garantias.
O amor consumiu meus cartões de visita, a capa social com que eu me apresentava aos outros para fingir que era alguém. E, depois, numa violência lírica, veio para cada página onde eu havia me escrito no mundo. Rasgou as entrelinhas. Apagou a tinta.
Fiquei nua de mim mesma. Ele devorou a minha paz e a minha guerra — que eram as únicas coisas que me mantinham acordada —, o meu dia e a minha noite, o meu inverno e o meu verão. Não há mais estações, há apenas o presente contínuo e avassalador de estar viva e exposta.
O amor comeu o meu silêncio, aquela fortaleza morna onde eu me escondia. Comeu a minha dor de cabeça, o meu cansaço diário, até mesmo o meu medo da morte — porque morrer já não faz sentido quando se está sendo digerida pela própria vida.
Estou vazia de posses, limpa de memórias, reduzida ao osso do ser. E o mais aterrorizante, o mais milagroso e terrivelmente belo de tudo isso: eu o olho, em meio aos meus escombros, e percebo que ele ainda tem fome.
O amor tem a eternidade pela frente, e eu sou apenas o seu primeiro prato.
© Beatriz Esmer
