A Gramática do Ser

Havia nela uma timidez de bicho do mato, um jeito de se esconder atrás das cortinas do próprio fôlego. Para essa moça, o mundo era um cômodo apertado, e a casca, uma couraça de ferro.

Seu único salvo-conduto, o único meio de vazar de si e ganhar a rua, era o artifício do adorno. Mas não se enfeitava de fitas ou colares; enfeitava-se, sim, de uma substância mais perigosa e volátil: a poesia.

O Desabrochar do Verbo
Em um esforço mudo, ela decidiu que a vida não bastava. E então ela expulsou o silêncio, empurrou-o para fora da boca como quem cospe um caroço de azeitona.

Vestiu a palavra, cobriu-se de substantivos concretos para não flutuar, de adjetivos táteis para se sentir viva.

Dizem que, ao passar, o ar se modificava. “Linda”, suspiraram os advérbios, rendidos àquela precisão de modo e de tempo. Ela já não caminhava; ela desdobrava versos no asfalto.

O Alento Final
Não era apenas aparência. A moça, agora poema vivo, operava uma biologia distinta:
Respirava rimas compassadas, como se o oxigênio fosse feito de orações adverbiais de vento.

Era uma criatura condicional, temporal, final, mas, acima de tudo, uma criatura livre pela força do que é dito. No meio do caminho de sua timidez, agora havia uma estrofe. E a estrofe, meu Deus, era o seu único lugar no mundo.

© Beatriz Esmer

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