Aos 62 anos, o tempo deixa de ser uma linha reta e passa a ser um cerzido cuidadoso no tecido da alma. Escrevo-te com a clareza de quem já viu muitas sombras se deitarem no chão, mas também com a estranheza de quem ainda se descobre viva, pulsante, quase intacta sob o peso dos dias.
A gratidão, meu filho, faz do coração morada para pequenas alegrias. Não lhe cabem outras maiores. É um sentimento de dimensões estreitas, uma pureza que se contenta com o pouco, com o quase nada que é tudo. E veja que mistério: não sei se isto é obra do acaso ou de distantes deuses, mas nosso tamanho corresponde exatamente ao do próprio coração. Somos como figuras que cabem na medida exata das nossas próprias sombras, nem um centímetro a mais, nem um a menos.
Mas a vida, essa força faminta, exige mais de nós aos sessenta mais. Para que no peito entrem maiores alegrias e a felicidade, que dizem ser a maior delas, embora eu desconfie de nomes tão definitivos, faz-se essencial algo mais árduo. É preciso acolher os sofrimentos. Eles chegam inéditos, graúdos, pesados de uma forma que a gratidão desconhece.
“O sofrimento não é falta de luz, é o próprio processo de abrir as janelas.”
Esses sofrimentos vêm para lacear o coração. Eles esticam as paredes internas, rasgam as costuras apertadas e, nesse alastramento doloroso, aumentam-nos os espaços. Só dói porque estamos crescendo por dentro. Só dói porque a alma está ficando maior que o corpo.
Apenas assim, meu filho, estaremos prontos. Prontos para as bênçãos que exigem espaço para respirar e para os amanhãs que batem à porta. Pois os amanhãs, aprendi agora, serão sempre maiores do que o que nos cabe hoje. É preciso coragem para ser grande. É preciso coragem para ter um coração que não para de se alargar. ❤️🙏🏾
© Beatriz Esmer
Foto restaurada de 1984
