A Dança dos Malditos

É um soco atrás do outro, sem trégua. Um respiro curto e o próximo já te atropela. Dia após dia, a vida vai escorrendo por entre os dedos feito areia suja, se perdendo nessas dobras malditas do que foi ou do que poderia ter sido. É um truque barato. A gente fica aí, com esse gosto amargo de bile na boca, remoendo as coisas que negligenciamos enquanto as horas passavam rindo da nossa cara.

Eu olho para os meus arrependimentos e vejo um labirinto que não leva a lugar nenhum, apenas a um beco sem saída com o muro pichado. Procuro alguma esperança nas escolhas, torcendo pra que o universo não decida me dar mais um chute nos dentes hoje.

E, enquanto isso, eu sigo. Eu vivo. Choro feito um idiota, dou risada do abismo, meto o punho na parede até os nós dos dedos sangrarem. Eu tropeço na própria existência como um bêbado tentando encontrar a chave de casa. Vou lambendo as feridas, essas marcas velhas, ancestrais, que toda mulher carrega desde que o primeiro macaco decidiu que pensar era uma boa ideia.

Eu vivo e tento fazer com que essa droga toda seja o suficiente. Geralmente não é. Mas é o que tem para o jantar.

© Beatriz Esmer

Leave a comment

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.