Nas entranhas desse silêncio que me habita, onde o tempo não urge mas escorre, encontro o que não ousei buscar: meu santuário. É um lugar sem relógios, uma geografia de esperas. Ali, eu amo. Amo sem a pressa imposta pelo mundo, até que o último sol se apague, derramando seu ouro líquido sobre o que é efêmero.
O que eu sinto não cabe em monumentos. Meu amor é feito de uma matéria quase invisível, fios de esperança tecidos no cansaço de cada hora. É um amor que vibra no ar, um segredo que a pele entende antes da mente. Ele se estende até as coisas mínimas: a formiga que atravessa o asfalto com sua urgência cega, o pardal que se aninha no esquecimento de um telhado. Tudo é digno de ser olhado.
E as pessoas? Ah, as pessoas possuem uma pequenez que me deslumbra. Suas falhas são, na verdade, a moldura de sua beleza. Há uma doçura no tropeço humano; uma vulnerabilidade que é, em si, uma coreografia. Às vezes elas se levantam e, num clarão, o coração arde de propósito. Amo-as assim, os sonhadores que buscam o impossível, os céticos que se protegem do que não podem tocar, os quebrados e os que, dolorosamente, se refazem.
Minha alma é um cometa que risca a escuridão, sempre à procura de algo que a complete. Busco a unidade, o encaixe das peças que o destino espalhou. Mas talvez a plenitude seja apenas uma miragem que treme no horizonte. Começo a suspeitar de que não é no todo, mas no vão, na nota que falta, que a alma finalmente ressoa. É na fenda que a luz entra.
Continuo amando, com uma quietude que chega a ser feroz. Não espero a utopia, essa ausência impossível de dor. Espero o mundo onde o amor seja a agulha que costura o tecido rasgado de nossa humanidade. Um lugar onde a bondade seja a única moeda que não perde o valor diante da morte.
E quando os meus dias minguarem e o sol fizer sua última reverência, eu ainda estarei amando. Porque o amor é esse fogo que não se consome; é a chama que aquece o nosso desterro e nos guia até o ponto exato onde o sonho, enfim, se confunde com o que é real.
© Beatriz Esmer
