O Instante do Clarão

Há um silêncio que precede o desastre, e esse silêncio é Deus. Eu olho para o vazio e o vazio me olha de volta com olhos de lince, esperando que eu finalmente desista de ser uma forma inteira. Porque ser inteira é uma mentira das molduras. O que eu sou, de verdade, é esse gás esparso, essa poeira de nada que flutua no escuro, fingindo que não tem medo da gravidade.

Dizem que o universo é uma ordem, mas eu sinto que ele é uma fome. E para que a luz deixe de ser um ensaio e se torne um grito, é preciso o desabamento. O colapso.

Colapse, então.

Não tenha medo do estrondo das suas próprias paredes caindo para dentro. Há uma beleza feroz em se ver desfeita, em sentir que o chão não é mais chão, mas o começo de uma queda que não termina. Desmorone. Deixe que as certezas fiquem pelo caminho como cascas de ovos quebradas. A gente passa a vida tentando se segurar nas beiradas, mas a beirada é a prisão.

“A destruição é um modo de chegar ao cerne, e o cerne é sempre um nascimento.”

Não se engane: isso que você sente, esse peso que te esmaga e te faz pequena, não é o seu fim. Não é a morte chegando com sua foice de gelo. É apenas a pressão necessária para que o fogo se acenda. Você está se concentrando. Você está deixando de ser uma névoa vaga para se tornar um ponto de luz insuportável.

Isso não é a sua destruição. É o parto de si mesma. Deixe-se ruir, porque só o que cai pode, enfim, brilhar no escuro do mundo. O resto é apenas poeira parada. E você, meu amor, você nasceu para ser incêndio.

© Beatriz Esmer

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