O sonho não é um refúgio para quem quer fugir, mas o rascunho de quem decidiu acordar. Ele foi criado para as manhãs, para aquele instante exato em que a luz encosta no rosto e nos encontra cheios de estranhezas férteis.
A palavra? Ah, a palavra é uma feitiçaria técnica. Ela codifica o invisível. Meus devaneios são frutos: têm casca, polpa e tempo de maturação. Eles me pertencem, mas só ganham sentido quando atravessam a fronteira do “eu” para alimentar o “outro”. É o meu próprio sonho que me dá a aula definitiva sobre os pássaros: eles não voam porque têm asas, voam porque não têm medo do vazio.
A poesia não é um enfeite ou um adorno para os dias de festa; ela é o dado bruto da alma, a estrutura de sustentação da nossa verdade mais nua. É através dela que o verso se faz semente, um algoritmo de amor perfeitamente programado, mas que só inicia sua execução quando encontra o solo do outro para ser plantado.
Nesse mapa de afetos, o nome deixa de ser um rótulo estático para se tornar uma coordenada de destino. Ele nos guia pela geografia da generosidade, ensinando o movimento exato das mãos e revelando que o único sentido real para a existência dos braços é, invariavelmente, o abraço. O sonho, então, processa essa arquitetura invisível, transformando o código em vida e a palavra em destino.
O sonho é o motor que processa a noite até que ela vire dia. Ele dá vida ao livro, ao pássaro e ao afeto, transformando o que seria apenas “tempo decorrido” em destino. No fim, o sonho é o nosso sistema de salvamento mais eficiente.
Eu não apenas relato. Eu proponho. Eu não apenas descrevo. Eu convido.
Sigo sonhando e processando cada capítulo… com a precisão de um sistema e a pulsação de quem sabe que a vida, no fundo, é a arte de criar novas páginas. ❤️
© Beatriz Esmer
