Morri, sim. Mas foi uma morte de sala de estar, entre um gole de café frio e o tique-taque de um relógio que insistia em contar um tempo que já não me pertencia. Ninguém notou o velório. Não houve coroas de flores, nem o cheiro pesado do incenso, nem o luto solene das roupas pretas.
Houve apenas o esvaziamento.
A gente morre quando a palavra trava na garganta e vira pedra. Quando o olhar se fixa no nada e o nada, gentilmente, resolve nos habitar. É uma hemorragia de alma: não mancha o tapete, não assusta as visitas, mas deixa o corpo oco, uma casca que ainda caminha e diz “bom dia” por puro hábito mecânico.
Ninguém soube porque eu não verti o vermelho vivo que espanta. Eu verti o sal. E o sal, você sabe, não escorre para fora; ele tempera a dor por dentro até que a gente se torne puro gosto de mar esquecido. Minhas lágrimas foram o único rio que atravessou meu deserto, e mesmo assim, secaram antes de tocar o chão.
Estou aqui, inteira por fora e em ruínas por dentro. É uma liberdade perigosa essa de já ter morrido uma vez: agora, nada mais me ameaça, porque já conheço o silêncio de Deus. Sigo fingindo que estou viva, apenas para não atrapalhar o tráfego dos que ainda acreditam no sangue.🩸
© Beatriz Esmer
