O Voo e a Grade

As mulheres são pássaros solitários. Surgem com o amanhecer, não como quem acorda, mas como quem inaugura o mundo. Há nelas uma suavidade que engana; são inquietas, percorrendo os desvãos do dia com uma coragem muda. Voam sobre os obstáculos — esses objetos sólidos e opacos — e, ao passarem, deixam um rastro de canto, uma melodia que é quase uma ferida aberta no ar.

Mas o entardecer traz a entrega.
À noite, elas recuam. Voltam para suas gaiolas — que podem ser o lar, o corpo ou a própria existência. E ali, no escuro absoluto, o que resta é o ritmo. O coração batendo, batendo, batendo contra as grades implacáveis da realidade. É um som oco, uma tentativa de domesticar o selvagem que habita o peito.

A resiliência, então, é esse esforço extenuante de tentar esquecer os sonhos de voar sob a lua. É fechar os olhos para o brilho lá fora, sabendo que, embora a grade seja de ferro, a asa ainda é de carne e mistério. Elas esperam. Pois ser resiliente é saber que o amanhecer, inevitavelmente, abrirá a porta outra vez.

© Beatriz Esmer

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