Pedi que você vivesse no meu coração. Assim, sem preâmbulos, como quem pede um copo d’água para estancar uma sede que não é da garganta, mas do ser. Você disse que sim. Um “sim” curto, seco, desses que carregam dentro de si o peso de mil “talvezes”.
Eu quis a segurança burocrática de um contrato, de um viver para sempre. Sugeri um contrato de locação, com cláusulas e garantias, para que o amanhã não me escapasse entre os dedos. Mas você, com essa sabedoria mansa de quem já foi estilhaçado, recusou o papel assinado. Escolheu o dia após dia. O tempo que não se acumula, que apenas acontece, gota a gota, como uma torneira mal fechada no meio da noite.
“O que é que se faz quando se descobre que o ‘para sempre’ é apenas um susto que não passou?”
Ofereci as paredes. Disse: “Mude as cores, arranque os quadros, derrube as vigas que me sustentam. Faça deste lugar o seu lugar”. Eu queria ser possuída pela sua estética. Mas você manteve tudo intacto. Disse que o lugar era meu e que você estava ali apenas por um empréstimo. Você se recusava a deixar marcas, como se ter uma casa fosse um pecado contra a sua própria liberdade de náufrago.
Falei em permanência, em um porto, em um lugar de onde nunca se precisa partir. Você suspirou. Foi um suspiro que cheirava a poeira e a despedidas antigas. “Disso eu nunca vou acreditar”, você disse, e as palavras caíram no chão da sala como vidro quebrado.
Você já havia morado em outros corações, não é? E agora traz esse cansaço nos olhos, essa perturbação de quem aprendeu que o amor é um despejo anunciado. Você chama de “lar” o lugar de onde sempre acaba expulso. E, ao não querer decorar o meu peito, você me confessa o seu maior medo: o de ter que carregar os móveis de novo quando o amor, esse proprietário implacável, pedir a chave de volta.
Você está aqui, mas já está de malas prontas na alma. E eu, que queria ser sua casa, descubro que sou apenas a sua próxima saudade.
© Beatriz Esmer
