1987

Era 1987, ou talvez fosse apenas o tempo desatento de um relógio de parede. Eu, que sou das ciências humanas e me perco no excesso das palavras, tentei ser uma física iniciante. Uma noviça dos átomos. Porque é preciso acreditar em algo invisível: o milagre das mínimas partículas que inventam a cama, a casa, o corpo que nos serve de habitação.

Nossos átomos se misturaram em uma confusão de sinapses. A galáxia dele, vasta e estrangeira, colidiu com a minha, deixando um rastro de poeira cósmica. Mas o infinito dele acabou. E quando acabou, foi um rasgo: como se alguém arrancasse, com violência, a obra de arte que estava colada aos meus ossos.

Ele carregava na lateral do corpo um triângulo. Ou era o que os outros viam. Mas na mudez da noite, enquanto meus dedos traçavam aquele contorno na pele, ele confessou: era um delta. Ele, da engenharia, sabia que os símbolos não ficam apenas no papel; eles caem para dentro da gente. O símbolo da mudança estava pregado às suas costelas. Discreto. Um lembrete de que nada é. Tudo está sendo.

“Por que não um círculo?”, eu perguntei, buscando a redondeza do que é inteiro. No escuro, senti o peso do seu olhar. Ele afastou meu cabelo, um gesto de quem organiza o caos, e disse: “Por que o círculo é a única forma que tem permissão para ser inteira?”

Na manhã seguinte, o café tinha o gosto amargo da revelação. Eu disse que qualquer forma poderia ser inteira. Mas ali, entre o vestir da roupa e o barulho do mundo lá fora, eu soube: eu o amava. E no mesmo instante, tive o pressentimento pavoroso de que ele decidia que havíamos terminado. Eu queria a ordem, a razão, o destino. Ele tinha o delta — a incerteza, a diferença, a mutação — tatuado como um emblema de aceitação em um mundo sem saída.

Dizem que o pino quadrado não cabe no buraco redondo. Mentira. Ele cai. Atravessa o vazio e atinge o fundo do poço com um som seco. Ele era o delta, o desvio constante. Aqueles anos de faculdade não foram tempo, foram queda.

Se me pedissem para desenhar o que fomos, eu traçaria apenas três linhas. Um triângulo isósceles que me deformou mais do que eu poderia supor. O peso da agulha na pele, a pressão dos olhos dele nos meus.

Onde, pergunto às estrelas de 1987, estava o “inteiro” entre nós dois?

Talvez a plenitude fosse exatamente o rastro do que se quebrou.

© Beatriz Esmer

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