A Matéria Escura do Domingo

Escrito em um Domingo no ano de 1990

Olho para o domingo e o domingo me olha de volta, com aquela sua cara de dia que não sabe bem para onde vai. Chove. Uma chuva miúda, dessas que não lavam a alma, só umedecem o vidro da janela e nos obrigam a olhar para dentro. É um canto perdido na hora, um instante qualquer que ninguém registrou no relógio, mas que aconteceu.

O amor acaba num domingo.
Assim, sem o estrondo de um relâmpago, sem o drama de uma ópera. Acaba na ponta de um silêncio que se estende pela sala de estar. É quase um susto perceber: o amor, aquela coisa que eu achava que era fonte eterna de vida, era apenas… uma invenção da minha própria sede? Sinto uma espécie de tontura ao pensar nisso. Amar desesperadamente era tão bonito, dava uma moldura para a existência. Mas a moldura quebrou e o que sobrou foi o vazio do espaço. Um amor esquecido na memória de quem achava que, se parasse de amar, o mundo pararia junto. O mundo não parou. Apenas chove.

A noite vem vindo e traz consigo o cansaço que não consegue dormir. Há um peso nos braços. Braços que a insônia só quer abraçar, mas que abraçam apenas o ar caótico do quarto escuro. O outro corpo na cama é uma cordilheira intransponível, uma distância de quilômetros medida em centímetros.

Busco um sentido nas bocas que não querem mais beijar. Onde antes havia o fogo que criava o mundo, agora só há solidão. Uma solidão tão pura e densa que quase se pode tocá-la, como um bicho de estimação que se acomodou no tapete. Beijar sem querer é uma das maiores violências que se pode cometer contra a própria carne. Então, não beijamos. Aceitamos o deserto.

É de uma cafonice atroz e de uma verdade cortante: o amor acaba.
E o pior — ou talvez o mais milagroso — não é o fim em si. É descobrir que, depois que ele acaba, a gente continua respirando. A vida, essa matéria misteriosa e insistente, continua a pulsar no escuro do domingo, mesmo quando não há mais ninguém para segurar a nossa mão.

O amor acaba em qualquer esquina do tempo, mas aos domingos ele se faz de silêncio, vestindo a chuva no corpo para ver se a gente percebe o peso da própria solidão.

© Beatriz Esmer

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