A Ponte de si Mesma

Eu estava ali, diante de uma superfície branca. Não era uma parede, não. Era um quadro, pendurado por um barbante que se assemelhava a um cordão umbilical, frágil e persistente. O quadro, continha apenas três linhas de texto, mas parecia conter o peso de um mundo inteiro. Ou talvez, mais assustadoramente, o peso do meu mundo inteiro.

CHORE UM RIO INTEIRO
A primeira instrução chegou como uma onda, não de palavras, mas de sensações físicas. Chorei. Oh, como chorei. Mas não foi o choro que sai dos olhos. Foi um choro que escorria para dentro. Um rio de tristezas acumuladas, de nãos-ditos, de dias cinzentos que eu fingia serem ensolarados. Eu senti o sal desse rio secreto quebrar contra as margens da minha alma. Era um rio tão vasto que eu pensei que me afogaria nele. Eu queria me afogar nele, para não ter que fazer mais nada. A dor era uma água fria e profunda, e eu estava submersa. E a instrução era chore. Chorei o rio, e ele era meu, e ele era terrível.

CONSTRUA UMA PONTE POR CIMA
Quando a última gota de dor parecia ter escorrido e o rio se aquietara numa lagoa de melancolia estagnada, veio a segunda ordem. E ela era hercúlea. Construir? Como? Com o quê? Eu estava exausta do próprio choro. Mas a voz no quadro não pedia permissão. Eu peguei as vigas da minha própria resistência, o concreto das minhas poucas memórias felizes, e a argamassa do puro instinto de sobrevivência. Eu não estava construindo uma ponte para o outro lado, para a cura. Eu estava construindo uma ponte com as minhas próprias mãos para escapar do meu próprio abismo. Era uma construção de andaimes frágeis, mas eu a estava construindo. Eu não construí a ponte para os outros olharem e dizerem: “que bela ponte!”. Eu a construí porque o rio, embora eu o tivesse chorado, ainda estava lá, e ele me devoraria se eu não subisse. A ponte era a minha própria vontade de não desistir.

ATRAVESSE
E então, o fim. O passo final, que parecia mais leve, mas era o mais aterrorizante de todos. Atravessar. Eu olhei para a ponte que eu mesma tinha construído. Ela rangia ao vento da minha incerteza. E lá embaixo, o rio que eu chorei ainda brilhava com a cor do desespero. Atravessar significava confiar em algo que eu mesma criei, quando eu não confiava em mim mesma. Mas a alternativa era a morte naquele rio. Eu dei o primeiro passo. E depois o segundo. E eu atravessei. Quando cheguei ao outro lado, que não era o “final”, mas apenas outro lado, eu não me senti vitoriosa. Eu me senti apenas… viva. Cansada, mas viva. O rio ainda estava lá atrás, mas ele já não me guardava. E o quadro, como visto em image.0.png, continuava lá na parede branca, com suas três linhas simples, como um oráculo silencioso que me forçou a me tornar a minha própria salvação. Eu era a ponte. Eu era a travessia. Eu era o rio. E agora, eu sou o outro lado.

© Beatriz Esmer

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