Migalhas de Mim

Quando eu tinha uns dez anos de idade, comecei a me perguntar como as pessoas diziam adeus quando estavam apaixonadas. Olhava ao redor, procurando a fórmula, o rito.

Na adolescência, via os jovens atingidos pelo amor se abraçando nos corredores do ensino médio antes das aulas. Havia uma urgência trágica ali; suas mentes eram incapazes de compreender a eternidade de um terceiro período sem o outro. Um drama pequeno, mas que para eles pesava como o mundo.

Em casa, a tradução era outra, mais violenta e ruidosa. Meu pai e minha mãe costumavam dizer eu te amo batendo portas na cara um do outro, gritando insultos, virando a noite acordados na tentativa feroz de encontrar seus sentimentos reais longe um do outro. O amor, ali, era um cansaço que se arrastava até o amanhecer.

Depois, o meu primeiro namorado. Ele aprendeu a gramática do avesso: dizia eu te amo empurrando o punho contra o meu rosto e jogando fora os meus anéis de prata. Como se o amor precisasse arrancar pedaços, como se para possuir fosse necessário esvaziar.

Até que veio você.

Você, um estranho, colocou sua boca contra a minha e jogou uma luz brilhante e violenta direto pelo meu esôfago. Hematomou meus braços com promessas que pesavam demais e me sacudiu para o estado de vigília nas primeiras horas do ano novo. Foi um nascimento bruto.

Desde que me perdi nos cânions da sua pele, tenho andado por aí, procurando por mim mesma nas ruas, em igrejas antigas e veneráveis, ou no fundo dos meus sapatos. Quem sabe eu pudesse me encontrar atrás das minhas próprias pálpebras? Em um livro de sonetos. No fundo de um poço.

Viver, afinal, é uma busca tateante pelo que fomos antes de nos entregarmos.

Eu costumava repetir poesias para mim mesma, sob o fôlego curto de tarefas mundanas, como um lembrete estrito do que eu ainda poderia ser. Para caber nos espaços, fui me desfazendo. Esfarelei pedaços de mim mesma pelo caminho, jogando partes em latas de lixo e ao longo de rodovias. E nunca — nem uma única vez — eu reclamei disso.

Ocorre que eu ainda não encontrei nenhuma parte do que joguei fora. Não há eco do que se foi.

Eu tenho, no entanto, sentido minhas células sanguíneas esbarrarem umas nas outras, cansadas, por dias demais seguidos, bem aqui… no corredor escuro e estreito desta que é a minha vida.

Resta saber o que fazer com o que sobrou.

© Beatriz Esmer

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