O Peso Vivo do Sentir

Olho para as minhas mãos e vejo nelas o mistério do mundo. Entre os dedos, sempre tive um relacionamento avassalador com a matéria das coisas. Viver nunca me foi um ato abstrato; foi sempre uma urgência tátil. O tato, o simples roçar… através dele, comuniquei verbos indizíveis e sujeitos inexistentes com palavras puramente humanas. Há uma linguagem silenciosa na carne que a gramática inveja.

Com a ponta dos dedos, numa audácia que me assusta e liberta, toquei o céu e a terra, oscilando sem redes de proteção entre a alegria mais pura e a mais profunda desespero. Não há neutralidade no que sinto. Minhas mãos acariciaram o invisível e recolheram o que restou do visível.

Trabalhei a vida. Com estas mesmas palmas, enxuguei lágrimas — as minhas e as alheias — e, num milagre puramente mecânico e divino, transformei-as em sorrisos. As mãos nunca estão sós; prolongam-se pelos braços e, num abraço que é quase uma captura do ser, apertei peitos que palpitavam de emoções vivas, assustadas, reais.

Com as mãos enviei beijos que o vento levou, tracei adeuses no ar. Nas minhas mãos plantei sementes e destinos; mordi os próprios dedos na angústia do tédio ou da espera, e ri até me faltar o ar, cobrindo a boca para reter a própria vida que escapava em gargalhadas.

Tenho uma certeza violenta, daquelas que doem no peito: com as mãos, eu nunca vivi sensações pela metade. Detesto a mornidão, odeio as meias-medidas. Se a vida é para ser gasta, que seja no limite do toque.

Porque foi assim, na plenitude dessa nudez das mãos, que eu toquei Você.

© Beatriz Esmer

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