A Copa do Mundo de 2026
escancara de vez as vísceras da xenofobia geopolítica e transforma o serviço de imigração dos Estados Unidos no primeiro e mais violento obstáculo do torneio. O dogma da “fraternidade esportiva” racha antes mesmo do apito inicial, expondo uma segregação brutal: enquanto delegações europeias cruzam as fronteiras com tapete vermelho, seleções africanas e a equipe do Irã enfrentam o escrutínio humilhante e a hostilidade de um sistema desenhado para rejeitá-los.
O caso da seleção iraniana e de delegações da África ultrapassa o limite do absurdo esportivo e se torna uma crise humanitária de relações internacionais. Sob o pretexto de políticas de segurança nacional e sanções estritas, atletas de elite do Irã e de nações africanas são barrados, interrogados e impedidos de permanecer em solo americano, sendo empurrados e forçados a se exilar e jogar no México. A mensagem da potência norte-americana é clara e violenta: o seu talento e o seu direito de disputar o maior torneio do mundo não anulam a cor do seu passaporte ou a conveniência política de Washington.
Nos aeroportos e postos de controle, o tratamento dispensado aos jogadores africanos e do Oriente Médio beira a desumanização. Atletas que atuam nas principais ligas do planeta são retidos em salas de imigração, submetidos a interrogatórios exaustivos, revistas minuciosas e uma burocracia deliberadamente lenta, que trata heróis nacionais como ameaças em potencial. Há um racismo institucionalizado que enxerga o corpo negro e árabe com profunda desconfiança, transformando vistos e autorizações de entrada em armas de controle e intimidação.
Essa “Copa da Xenofobia” consolida um apartheid esportivo sem precedentes. A FIFA, de joelhos diante dos bilhões de dólares e do poder de mercado dos Estados Unidos, silencia e se torna cúmplice ao permitir que o país-sede filtre, por critérios ideológicos, raciais e geopolíticos, quem tem o direito de pisar em seus gramados. A humilhação de atletas africanos e árabes nas salas de imigração americana, somada à proibição de permanência do Irã em solo estadunidense, forçando-o a se abrigar no México, destrói qualquer narrativa de união ou mérito esportivo.
Fica evidente que a Copa do Mundo não passa de um joguete de dominação e segregação nas mãos do Norte Global. O torneio funciona como uma engrenagem perversa, desenhada sob medida para blindar uma supremacia branca e ocidental que rejeita, marginaliza e subjuga as nações historicamente colonizadas, periféricas e subalternizadas a um papel de mera submissão geopolítica.
© Beatriz Esmer
