O Esplendor da Carne

A nudez, para ela, não começava na ausência de roupas. Começava antes. Vinha de um ponto obscuro e vital que latejava bem atrás do estômago.

Todos os dias, ela caminhava nua pela casa. Não era um ato; era um estado. As cortinas escancaradas desafiavam o mundo exterior com a violência mansa de quem simplesmente existe. O cabelo solto, pesado de si mesmo. A coragem estendida sobre os móveis, como um tapete precioso que ninguém ousava pisar.

Não era sobre sexo. Bom, ela pensava, enquanto a brisa tocava a curva súbita de seu quadril, talvez não fosse inteiramente sobre sexo. Havia algo mais antigo ali. Tinha a ver com a alegria. Uma alegria perigosa, quase insuportável de tão pura.

Ela vinha de uma cultura bárbara. Uma engrenagem esquisita que, com uma das mãos, pressionava as mulheres para que fossem abertamente sexuais — para que servissem de banquete aos olhos alheios em troca de atenção —, enquanto, com a outra mão, exigia delas um recato casto, uma mudez comportada para receber a esmola da aprovação. Era um equilíbrio impossível. Uma mentira que lhe cansava a alma.

Mas ali, no silêncio do assoalho frio contra a sola dos pés, a verdade se restabelecia.

Havia uma sensação que a invadia, uma correnteza morna: a de estar perfeitamente confortável em sua glória plena e nua. Isso a tornava delirantemente feliz. Uma felicidade que raiava o desespero de ser livre.

Pois, pela primeira vez na vida, o peso opaco do decoro e das expectativas alheias havia desabado no chão, junto com o último tecido. Ela olhava para o próprio corpo e não via o que os outros queriam ver; via a si mesma, bicho e Deus ao mesmo tempo.

Ela era absolutamente deslumbrante. Uma beleza que não pedia licença para ocupar o espaço. E o que mais a preenchia de uma paz quase divina era que ela não dava a mínima para quem sabia disso, ou para quem era capaz de apreciar. O mundo exterior, com seus julgamentos pequenos, era apenas um ruído distante de uma civilização que esquecera como se vive.

Ela era. E isso bastava para assombrar o próprio espelho. 😉❤️

© Beatriz Esmer

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