O Aprendizado das Mãos

Perdoe-me pelo despropósito de querer lhe tocar com tanta fúria. É que minhas mãos, tão costumadas com os entulhos e as miudezas sem brilho do mundo, desajustam-se. Diante de algo que guarda a pureza e a beleza das coisas Primeiras — assim como você —, minhas mãos perdem o juízo. Agigantam-se de um jeito torto, desajeitado. Em vez de ninar, elas engasgam, esmagam e quebram. Sou um bicho feito de cascas grossas tentando ninar uma asa de borboleta.

Há uma demência em mim, você sabe. Uma esquisitice que precisa de tão pouco amor para sobreviver e, no milésimo de segundo seguinte, transborda em uma imensidão tão desmedida que acaba por enxotar o próprio amor para fora de casa. Sou o avesso dos tamanhos.

No fundo, sou uma sanfona de esperanças. Vivo desse movimento de encolher e esticar os vazios, inventando músicas no escuro. E, de tanto carregar o peso do mundo e a urgência dos milagres, acabei com estrias na alma.

Nota: Quem tem a alma feita de dobras e cicatrizes nem sempre sabe como tocar o sagrado sem arranhar. Mas é exatamente nas rachaduras da carne que a poesia cria o seu formigueiro.

© Beatriz Esmer

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