Crescemos ouvindo que o amor exige sacrifício. Que o belo está no mistério, na busca incessante, no enigma quase metafísico de decifrar alguém que insiste em se manter trancado em sua própria redoma de vidro. Olho para essa redoma e sinto uma náusea sutil: a urgência de tocar o que está atrás do vidro, sem perceber que o vidro é apenas um limite frio. Passamos boa parte da vida acreditando que a profundidade de um sentimento se mede pelo tamanho do trabalho que ele dá para florescer. Que tolice fecunda. É a alma que se dilata na dor para fingir que está vivendo.
Passamos noites olhando para o céu estrelado, um silêncio cósmico que pesa, romantizando o silêncio do outro como se fosse poesia mística. E não é. É apenas a matéria bruta da falta de interesse. “Não romantize pessoas difíceis”, digo a mim mesma num sussurro que rasga a noite. Às vezes precisamos desse chacoalhão violento e necessário, pois insistimos em cultivar jardins em terrenos áridos, onde a semente seca antes de ser. Passamos tempo demais correndo atrás de quem se esconde atrás de espinhos, confundindo a frieza com uma complexidade interior que criamos em nossa própria carência. Confundimos desdém com charme. Que erro de sintaxe vital.
Olhar para o outro e ver apenas o próprio eco: eis a solidão disfarçada de amor.
A maturidade, no entanto, opera um milagre silencioso e quase físico na nossa percepção. Um dia, a carne e o espírito cansam. A gente cansa do deserto, dessa areia que entra nos olhos e nos impede de ver o agora. Cansa de tentar adivinhar o que os silêncios significam — como se fossem hieróglifos e não apenas o vazio — e de mendigar migalhas de atenção. É nesse momento de epifania — adoro esta palavra—, um instante suspenso no tempo onde tudo se ilumina com uma clareza assustadora, que percebemos a verdade mais bonita e assustadoramente simples da vida: não há nada melhor do que gente atenciosa, disponível e recíproca. O resto é literatura de sofrimento.
Descobrimos, com um alívio que beira o choro, que o amor de verdade não precisa ser um enigma de doer a cabeça, uma charada existencial. Bonito mesmo é o afeto que se entrega sem jogos, na crueza da sua verdade. Que responde à mensagem porque quer conversar, que marca um encontro porque quer ver, que está lá simplesmente porque escolheu a existência do outro. Não há poesia na escassez. A escassez é o nada. A verdadeira poesia está na leveza de saber exatamente onde se pisar, sem o medo constante de cair em abismos emocionais que nós mesmos cavamos.
Nós, que habitamos este mundo imenso, assustador e cheio de possibilidades orgânicas, podemos finalmente escolher. Escolher o avesso do deserto. Não a miragem, mas a água. O aconchego de quem nos transborda com presença viva, o calor de um abraço que não hesita e a paz inestimável — a paz quase divina — da reciprocidade. O deserto ficou para trás. Agora, aceito apenas o que transborda.
© Beatriz Esmer
