Há dias em que a alma cansa do combate ininterrupto. O corpo pede o avesso da gravidade. Nesses dias, não escolho lutar para sempre; escolho apenas o gesto miúdo e quase clandestino de virar o travesseiro para o seu lado frio. Há uma volúpia secreta em render-se ao anonimato — esse vazio cinzento e indolor onde a existência deixa de doer porque deixa de ser. É o quase-nada. Mas existir é uma matéria persistente.
De repente, como um eco sussurrado no escuro do quarto, as memórias começam a agitar-se. Não são pensamentos, são presenças. Compromissos gravados não na agenda, mas no próprio tecido da alma: os rostos daqueles que amo, os risos soltos, as lágrimas grossas que já secaram. Tudo isso vai se tecendo, sem pedir licença, na minha consciência espessa. É um equilíbrio delicado, quase milagroso, entre o peso de sumir e a urgência de ficar. E é nessa fresta que encontro o que os outros chamam de determinação, mas que em mim é apenas um vislumbre de salvação.
“Hoje”, digo a mim mesma, num diálogo interior que ninguém mais ouve, “eles ainda estão aqui.”
A presença deles não é um fardo; é uma armadura invisível que me reveste. Cada amanhecer que rasga a janela, cada batida cega do meu coração no peito, torna-se um testemunho mudo dessa resiliência que eu mesma desconhecia possuir. Descubro-me guerreira. Não dessas que empunham espadas ou se protegem com escudos de ferro, mas uma combatente da quietude, cuja única arma é a persistência de continuar respirando.
Um mantra vai se desenhando dentro de mim, com a força de uma prece pagã: “Mesmo hoje, eu ainda estou aqui.” É o milagre do gerúndio. Estou sendo.
As batalhas da vida têm o seu próprio fluxo, como as marés de um mar incompreensível; elas vão e voltam, mas a luta em si, essa permanece. Ela está gravada no tutano da minha existência — uma verdade atemporal, anterior a mim.
Por isso, eu me levanto. Não há fúria no meu levantar, não há alarde. Há apenas uma determinação silenciosa, quase solene. Porque é nessa dança frágil e perigosa entre a rendição e o recomeço que descubro o mistério maior: no fundo, é sempre tempo de lutar. Lutar pelo amor que nos transborda, pelo propósito que nos inventa e pela beleza terrivelmente frágil de, simplesmente, estar viva.
© Beatriz Esmer
