O Evangelho do Último Homem: O Deus que Pede Pão

O céu não se rasgou. Não houve o colapso estético que os fracos esperavam para justificar sua submissão. As trombetas emudeceram diante do ruído mecânico do progresso. Vocês queriam o apocalipse dos palcos, o espetáculo da culpa cristã purgada em praça pública, mas o que receberam foi o silêncio gelado da estatística.

Ele voltou. Mas não como o juiz terrível dos vossos delírios de rebanho. Voltou como o peso morto da transcendência na era da imanência absoluta. Veio com o rosto sujo, a barba por fazer, o sotaque dos expulsos. Um homem de carne, desgastado pela fricção dos séculos, trazendo nos olhos aquela mansidão covarde que a modernidade aprendeu a odiar. Ele não veio salvar; veio mendigar. Pediu pão. Pediu abrigo. Teve a audácia de exigir humanidade de uma engrenagem que já superou o humano.

E quem primeiro cuspiu na sua face? Os sacerdotes do nada. Os burocratas do espírito, os virtuosos da boca para fora, os que decoram a moral para não terem de vivê-la. Olharam para o Absoluto faminto e sentiram náusea. O Verbo se fez carne, e a carne fedia a asfalto e miséria.

Para proteger a ficção da vossa ordem, o Estado — esse mais frio de todos os monstros frios — agiu. Sacou de suas leis, suas diretrizes de segurança, seus arames farpados. O Deus de vocês foi algemado por desacato à soberania dos homens. Foi deportado porque a eternidade não possui visto de permanência.

Vocês mataram a transcendência e agora exigem que ela apresente passaporte.

Na cela, a máquina — o novo olho da providência — filmou o instante em que Ele dividiu o pão. Um átomo de comunidade no deserto do egoísmo. O vídeo flutuou pelas redes por alguns minutos, consumido como entretenimento rápido pelos niilistas de tela, até ser deletado pelo algoritmo da conveniência. A verdade é um “conteúdo sensível” para uma sociedade de anestesiados.

Continuem, pois, sentados sobre as ruínas dos seus templos, olhando para as nuvens à espera de uma catástrofe que cure o vosso tédio. A Luz esteve aqui, implorou pela vossa sobra, e vocês a trancaram numa cela. O Deus de vocês voltou, foi fichado, expulso, e o mundo continuou tomando o seu café da manhã. Vocês não o reconheceram porque só sabem adorar o poder, nunca a vida.

© Beatriz Esmer

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