Presságios

Disseram-me os espíritos que me cuidasse. A preta velha, no terreiro, não falou alto — mas sua voz atravessou os anos como quem atravessa um rio sem fazer barulho. Hoje, a luz que entrou pela janela não iluminou o quarto: iluminou a lembrança. E eu, que sempre achei que presságios fossem exageros da imaginação, senti o aviso se instalar em mim como um pássaro que decide pousar.

Cuidar-me — como?
A pergunta veio com uma espécie de vertigem. Poderia adoecer, perder-me no caminho, perder o amor da minha vida que nunca tive, perder até o teto que me abriga. Se eu escrevesse tudo, faltaria papel. Talvez falte coragem.

Mas o que querem que eu saiba?
Não acredito que me entregariam uma sentença fechada, dessas que não permitem desvio. Seria cruel demais. E, no entanto, há uma ternura secreta nos avisos — como se o destino, por um instante, se inclinasse para cochichar: “Ainda dá tempo”.

Percebo que o aviso não é sobre o perigo.
É sobre a minha mania de antecipá-lo.
Sobre o medo que invento antes que o mundo me ofereça qualquer ameaça real.

O convite — porque agora entendo que é um convite — está escondido atrás da ansiedade, como uma porta que só se vê quando se para de correr. O convite é a entrega. Não a entrega resignada, mas aquela que nasce quando a gente finalmente admite que não controla o vento, nem as marés, nem o coração dos outros.

Cuidar-me, então, seria cultivar fé.
Aceitar o movimento das coisas.
Deixar que as tempestades passem sem que eu tente segurá-las com as mãos.


Manter-me em equilíbrio não apesar dos fatos, mas dentro deles.

E assim, talvez, eu descubra que presságios não são ameaças — são bússolas.

© Beatriz Esmer

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