O Grito que Nos Costura

Há dias em que a vida é um ruído insuportável, uma tempestade que me habita e me desabriga. Sinto, com um terror quase místico, que a civilização — esse frágil arranjo de formas que inventamos — está por um fio, pronta a colapsar se não aprendermos, finalmente, a honrar a dor do outro. Como se a dor fosse, na verdade, a nossa única pátria comum.

Apesar da minha resistência, apesar dessa minha teimosia em querer ser intocável, há uma verdade que pulsa nos meus ossos, uma certeza que não pede licença: só a abertura do coração torna o mistério visível. É como se, ao nos deixarmos ferir pela miséria que encontramos pelo caminho, o nosso próprio coração coletivo se revelasse, despido de artifícios.

Para acessar o que há de mais vivo na vida, é preciso ouvir. Não com os ouvidos, mas com esse coração comum que retumba nos gritos do mundo. Precisamos, urgentemente, desistir dessa obsessão neurótica de evitar o sofrimento, de fugir do que nos corta. É preciso, enfim, sentir o único grito da vida, aquele fluxo subterrâneo que nos faz transbordar uns para dentro dos outros.

E quando nos dermos conta — de uma vez por todas — de que vamos morrer… não como uma ameaça que nos ronda, mas como essa verdade absoluta que nos costura uns aos outros… talvez, então, paremos de correr. Talvez possamos, enfim, sentir. Alcançar. Tornar-nos porosos, tão porosos que o amor, em toda a sua crueza, possa finalmente nos atravessar.

É um exercício de entrega. A morte não é o fim; é o convite para a porosidade. E eu quero, apesar de tudo, deixar o amor passar.

© Beatriz Esmer

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