A pergunta me corta o ar, como uma faca que não fere, mas que abre. Será que me honro? Pergunto-me, com esse espanto de quem, pela primeira vez, se vê refletida numa vidraça suja de tempo. Honrar-me. A palavra parece pesada demais, um hábito solene que não cabe na minha urgência de ser.
E esta existência — este privilégio, ou esta sentença, quem dirá? — tem sido por mim reconhecida? Caminho por entre as horas com a desatenção de quem pisa em ovos, sem saber se a vida é o ovo ou a casca que deixo pelo caminho. É que existir exige um esforço quase insuportável de presença. Exige que eu me habite, que eu me ocupe de mim com a mesma dedicação sagrada com que a flor se ocupa da cor.
Pergunto-me se sou, enfim, uma expressão. A palavra “expressão” me fascina: o que é que de dentro precisa, desesperadamente, saltar para fora? Se não for o amor, se não for a alegria — essa alegria que é um susto, um clarão súbito —, o que é que me resta? Resta-me o vácuo. Resta-me a compaixão, que não é pena, entenda-se, mas essa estranha capacidade de sentir o outro como se a pele dele fosse, também, a minha, e a sua dor, um eco do meu próprio coração batendo descompassado.
Quero ser tudo isso. Não por dever, mas por uma fome de verdade que me corrói. Quero que a minha vida não seja apenas um passar de dias, mas um verbo. Um verbo que se conjuga no presente, sem medo do que virá, porque o agora é a única eternidade que me foi dada a provar.
© Beatriz Esmer
