Se um dia você receber uma carta – longa, espessa, com a caligrafia trêmula de quem descobre o mundo pela primeira vez, repetindo cores e juras que se desenrolam pelas esquinas do seu bairro –, saiba: sou eu. Estou aí, logo na sua frente, com esse sabor adolescente de ser cafona. E é um sabor doce, quase uma vertigem de açúcar e orvalho.
Se por um acaso você ouvir, através da fresta da janela, um zumbido estranho que corta a noite, abra. Abra depressa. Lá estarei eu, sob a garoa que insiste em molhar o tempo, declamando versos que perdem o sentido, cantando de um jeito lírico que desafina a alma, pegando uma gripe sem a menor preocupação com o amanhã. Não me repreenda! Deixe-me ser a apaixonada que nunca fui, aquela que se descobre em carne viva.
Se você olhar para cima e me encontrar, estarei aprendendo a pilotar um avião, não por vaidade, mas apenas para despejar do alto pétalas de rosas dinamarquesas – colhidas especialmente para você. E não se zangue, por favor. Além dos meus medos e dos meus devaneios, permita que eu voe no seu amor, seja nas asas de uma metáfora impossível ou no motor engasgado de um teco-teco velho.
Se eu passar pela praça e te vir, farei para você uma escultura de canudos de sorvete – algo frágil, quase nada, mas que sustenta o nosso peso. Aprenderei ofícios nobres, serei amiga dos velhos artesãos apenas para construir, grão a grão, o nosso sonho comum de uma casinha branca de varanda.
Não me diga nada. Ou diga qualquer coisa, desde que não doa. Não machuque esse meu jeito de ser bicho-do-mato que se rendeu ao óbvio. Permita-me ser o clichê, o lugar-comum, o romantismo batido, o melado, a boba, a imensamente feliz.
Deixe-me ser, no seu amor, aquilo que eu sonhei ao acordar. Deixe-me ser, enfim, o que serei quando o nosso amor estiver velho e souber, finalmente, o silêncio de quem se ama. ❤️
© Beatriz Esmer
