A Inevitável Aposta do Agora

O amor, se é que existe, não é um convite à paz, mas uma convocação à entrega. Você deve estar com alguém que faça o seu coração, esse músculo inquieto e tantas vezes sombrio, subitamente sorrir. É preciso amar com a totalidade absoluta: o cérebro, que tenta entender o inexplicável; o corpo, que conhece a verdade antes da mente; e o coração, que se despe para ser habitado.

Divida os cobertores. Seja a concha maior, abrace com a força de quem protege, mesmo que você, na sua própria sede de ninho, prefira ser o bicho-preguiça enrolado nos braços do outro. Amar é essa troca de posições, essa dança entre o cuidar e o ser cuidado. Quando a febre vier, seja a cura — não porque você tem o poder divino, mas porque o seu amor, por si só, já é um bálsamo. Eles nunca dirão, por pudor ou por medo, mas você pode, sim, consertar as bordas quebradas do mundo deles. Conserte. Porque o amor é um ato, não uma intenção.

Mesmo quando a superfície estiver calma, sedimente-se. Seja a pessoa deles. Faça com que o seu amor seja sentido como uma rocha inabalável, algo que não se sequestra, que não se apaga, que não se esvai. Estar vivo é uma tarefa árdua, uma batalha cotidiana, e lembrá-los de que você é a criatura mais afortunada da terra por terem escolhido dividir esse sopro de vida com você, é o gesto mais generoso que existe.

Cumpra as promessas. Não porque o mundo exige, mas porque você descobrirá, tarde demais talvez, que a palavra dada é o único fio que mantém o tempo unido. Beije com a mesma urgência do café da manhã, a mesma dos primeiros encontros, sem a timidez de quem teme o espanto. Se eles te fazem suspirar, deixe. O suspiro é a alma saindo um pouco do lugar.

Seja vulnerável. Ah, a vulnerabilidade… ela é o lugar onde o medo se transforma em segurança. Seja a ponte, mesmo quando eles estiverem paralisados na outra margem. E cuidado com as palavras. Elas são ferros em brasa que, uma vez ditas, tatuam a memória. O que sai da sua boca é o que fica deles; não se dê ao luxo da impulsividade.

Ame com os dedos, com os olhos, com o medo que você tem de perder tudo. Ame até quando não parecer amor, porque é exatamente aí que o amor se prova — na insistência, na resistência, no “não” que se transforma em “fica”. Segure as duas mãos deles. Olhe fixamente. Diga que tudo ficará bem. Às vezes, o futuro não é o que nos espera, é apenas a certeza de que, ao ouvir a sua voz, o presente se torna suportável.

É assim, na miudeza da entrega, que se constrói o para sempre. Como uma de minhas aquarelas, onde as cores se misturam e o contorno se desfaz: não é um desenho rígido, é uma mancha de vida que sangra e floresce ao mesmo tempo.

© Beatriz Esmer

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