No silêncio da noite, o mar ecoava como um lamento antigo. As ondas se erguiam, não como dança, mas como súplica. Lá, entre o céu e a água, almas invisíveis gritavam — presas a correntes que não eram de ferro, mas de esquecimento. Era ali que o poeta, com o coração em chamas, lançava seu brado:
“Senhor Deus dos desgraçados!”
A cada suspiro do vento, vinham histórias de corpos naufragados, de olhos que viram demais e bocas caladas pelo medo. Diante de tanto sofrimento, de tanto horror que manchava os céus, o espírito do poeta estremecia:
“Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura… se é verdade… tanto horror perante os céus?!” — Castro Alves
Era loucura? Ou seria a mais terrível das verdades — que o mundo se acostuma ao grito quando não é seu?
O céu, silencioso, não respondia. Mas em cada estrela que tremia, havia talvez um pesar. E a pergunta, lançada com a força de quem não aceita a injustiça, ainda reverberava como um trovão distante… esperando que alguém, enfim, ouvisse.
©️ Beatriz Esmer
