Eu te amo pela poesia das coisas ditas como se eu nunca antes tivesse dito palavra: um peso, um significado, uma realeza, um gole mesmo dos lábios contentes que me fazem céus. Vivi com silêncios como um luto inconsciente por não saber de ti. Tudo o que me dizias era página de jornal velho, formalidade, enchimento, um catálogo de conveniências necessárias para sobreviver aos dias…
Ah, essa urgência de dizer. Mas o que é o dito, senão um modo de silenciar o que é mais profundo? Antes de ti, eu habitava o vácuo. Não era bem uma espera, era um luto — sim, um luto por algo que eu ainda não conhecia, uma ausência que pesava como uma pedra no centro da alma, sem nome, sem contorno. Eu vivia entre as páginas de jornal velho, lendo o mundo como quem lê uma lista de compras: pão, leite, a sobrevivência, a obediência cega ao calendário. Eram palavras de catálogo, formalidades que a gente troca para não enlouquecer com o ruído do nada.
Até que, no teu falar, as coisas se despiram. Quando tu falas, há uma espécie de sagração. É como se a língua, essa coisa precária, finalmente descobrisse que serve para mais do que nomear objetos; serve para inaugurar o mundo. Tu dizes a palavra e ela nasce — puff — ali, diante de nós, com uma realeza que me assusta.
É uma poesia que não é feita de rimas, mas de carne. É um gole. Um gole apenas desses teus lábios que, de tão contentes em serem, transformam a sala, o teto, o próprio ar em céus sucessivos. Eu te amo por isso: por me devolveres a capacidade de espanto. Antes de ti, eu era uma colecionadora de ruídos. Depois de ti, a palavra tornou-se este acontecimento — perigoso, necessário e doce — de finalmente ser.
© Beatriz Esmer
