A vida não é um acontecimento, é um estado de espírito que se atropela.
Olho para o relógio e ele mente. O tempo não passa, ele se acumula, um sedimento de instantes que se recusam a morrer. Je l’aime tant, le temps qui reste… Digo isso como quem segura um pássaro ferido nas mãos, sentindo o pulsar quente e desesperado contra a palma. Não é medo do fim, é uma urgência absurda de ser tudo, simultaneamente, antes que a luz apague.
Quero rir, mas rir de um modo que faça as costelas doerem, um riso de quem descobriu um segredo inconfessável sobre a existência. Quero correr não para chegar, mas para sentir o vento desmanchar a minha forma, para que o mundo borre e eu me torne, finalmente, uma mancha de vida pura no espaço.
E chorar. Ah, chorar é necessário. É preciso lavar os olhos para que eles não se tornem vitrines opacas. Chorar é a maneira que o corpo encontra de se confessar diante do silêncio. Falar, também. Falar para preencher o vazio, falar para provar que a voz ainda vibra, que a língua ainda desenha o mundo.
Eu quero crer. Não em deuses de gesso, mas na crueza do que vejo. Beber a vida em goles longos, até ficar ébria de detalhes. Dançar com a desordem, deixar que os pés sigam um ritmo que não me pertence, uma coreografia imposta pela própria matéria da vida. Citar, gritar, comer o mundo com a fome de quem sabe que o banquete é finito.
Nadar. Deixar-me flutuar na água, esse útero onde a gravidade se esquece de mim, e depois, subitamente, bondir — saltar! — para a terra firme, ainda que a terra seja traiçoeira. Desobedecer. Desobedecer é a única prova de que estou viva. Obedecer é apenas uma forma lenta de se retirar do palco. Eu não quero sair do palco. J’ai pas fini, j’ai pas fini.
Ainda há tanto de mim que não transbordou.
Quero voar — mesmo que seja apenas no pensamento, onde a física não tem jurisdição. Cantar com a voz que me foi dada, que às vezes desafina, mas que ainda assim é música. Partir? Partir é apenas mudar de cenário para, em seguida, repartir, começar de novo, sempre de novo, num ciclo que não se cansa de mim.
Sofrer e amar. São dois lados da mesma moeda que arde na minha mão. Sem o sofrimento, o amor seria uma superfície plana, sem profundidade, sem o relevo que define a beleza.
O tempo que resta não é uma contagem regressiva; é uma insistência. É um convite para que eu me despeça de tudo, menos de mim mesma. Amo este tempo porque ele é o único lugar onde posso ser, finalmente, o que sempre temi ser: inteira, exposta, viva até a última sílaba.
Je l’aime tant, le temps qui reste. O resto é silêncio, mas, por enquanto, o resto é barulho, é fúria, é puro e incandescente estar.
© Beatriz Esmer
