O murmúrio do mar. Não é apenas água; é uma pulsação, uma espécie de canto antigo que me dói, uma melodia feita de fel e mel que narra o que não deveria ser narrado: o destino dessas tantas almas que se perderam no azul puro, nesse infinito que, de tão grande, engole a humanidade. Eles estão lá, inertes — como se a própria vontade humana tivesse sido uma faca que os cortou do mundo —, à deriva, longe de uma pátria que lhes foi roubada, violada, como se a terra fosse apenas um objeto de posse.
E há as mãos. Essas mãos que tudo tiraram — o ouro, a fé, a dignidade —, e que agora olham. Olham sem nada sentir, observando o afogamento com uma indiferença que é, por si só, um crime. Cada onda que se quebra na areia não é apenas água; é o eco de um sofrimento que se recusa a calar, uma lembrança insuportável da crueldade que chamamos de mundo.
À noite, sob um céu de estrelas que parecem lágrimas congeladas, o mar torna-se o único espectador dessas tragédias que o tempo teima em esquecer. A luz das estrelas é melancólica, quase um luto, enquanto o mar sussurra segredos que ninguém quer ouvir: histórias de vidas feitas em estilhaços, sonhos que se evaporaram antes de tocar o chão. O vento, esse cúmplice eterno, sopra um segredo de revolta, um desespero que se espalha sem aviso.
Cada grão de areia nesta praia é uma relíquia, o resto de alguém que foi arrancado de onde pertencia. O mar, com sua força que não pede licença, insiste em cantar — uma resiliência que é, ao mesmo tempo, uma dor profunda. O ciclo não para. O mar e o vento, em sua aliança muda, insistem em nos obrigar a olhar para a beleza que é tão frágil, e para a crueldade que, sendo tão humana, é implacável.
É um mistério: como pode a mesma água que acalenta ser a que assiste ao fim?
© Beatriz Esmer
